Alma escura

O cara era um pessimista e azarado. Nada dava certo para ele, que já estava conformado. E mais que isso: satisfeito. Ele era um pessimista resignado com a vida que levava. Quando as coisas saíam erradas no dia a dia, era nada mais do que a confirmação de seu destino. Ele era tão miseravelmente derrotado que ninguém na família ousaria viajar de avião com o sujeito. Seu carro estava sempre na oficina, consertando alguma batida. Pelo menos uma vez por semana o ônibus que o levava ao trabalho quebrava ou furava o pneu. Nas ruas com entulho, a barata corria em direção ao seu pé. Na lanchonete, o suco pedido se esparramava pelo balcão. A facilidade com que ele derrubava qualquer coisa no chão era assustadora. Atravessava a rua e trombava em alguém que vinha caminhando na direção oposta. Com as roupas, então, parecia um complô: o botão pulava da camisa só para expor sua barriga em público. A calça rasgava na roleta do transporte, a alça da mochila arrebentava quando ela estava cheia e pesada, a sola do sapato abria a boca em dia de chuva.

Na última segunda-feira, ele saiu de casa e fazia sol. Pegou o ônibus e chegou na hora certa no trabalho. Almoçou sem derrubar nada na mesa ou em alguém. Conversou com os colegas sem trocar as palavras, voltou para casa e a TV funcionava no canal escolhido. Quando foi dormir, reparou que sua roupa estava limpa e inteira. Nada de ruim acontecera. Nada do que estava acostumado. Deitou a cabeça no travesseiro e chorou, pois havia sido o pior dia de sua vida.

 

Mulher

Ela abriu os olhos e ainda não amanhecera. Levantou da cama na penumbra, acendeu a lâmpada pendurada pelo fio, entrou no banheiro descascado e sem enfeites, tomou uma ducha cantarolando. Depois se vestiu, prendeu o cabelo num arrumado coque e passou batom antes de sair. O morro estava mais agitado naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo dormente.

Abriu a porta, deu oi pra vizinha, conversaram sobre o churrasco de aniversário no domingo. Combinaram o que levariam e trocaram ideias sobre as roupas que usariam. Começou a descer a rua, que estava mais movimentada naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo cansado.

Caminhando em seu ritmo, repassou mentalmente o que a esperava no laboratório em que trabalhava. No dia anterior, uma cliente mal-humorada tinha escrito uma reclamação sobre uma das atendentes e ela, como supervisora, teria que resolver o problema com muito jeito. Enquanto caminhava, pensando na resposta, percebeu um número maior de policiais nas vielas que estavam mais cheias naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo incômodo.

Apressou o passo, pois queria falar com a amiga na padaria antes de seguir para o trabalho. O sapato novo, parte do uniforme do laboratório, apertava seu pé e ela pensou que, no fim do dia, teria uma bolha para cuidar. Ouviu o barulho que vinha do alto do morro, que estava mais violento naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo desagradável.

Enquanto andava, sentiu um beliscão nas costas, ao mesmo tempo em que caiu no chão. Fechou os olhos, o sangue escorreu pela calçada que estava mais apinhada naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo da vida.

 

Eu e o outro eu

Ela abriu os olhos grandes e escuros e sorriu com a boca sem dentes para o homem grande à sua frente. Ele abriu os braços e ela se jogou em total confiança, aninhou-se e nunca mais sairia de sua segurança. Uma bola jogada na direção dos dois desviou a atenção da menina, que levantou a cabeça. – Deita, filhinha, deita – pediu o pai, com carinho, enquanto aconchegava a filha novamente na posição confortável para transportá-la pela areia quente, cheiro de maresia, em direção ao calçadão.

Ela não desgrudava os olhos da TV, assistindo a um filme com monstros violentos e destruidores, e não deu bola para ele que entrou na casa, com cheiro de comida recém-feita. Desligou a TV, pegou a filha, que reclamava, no colo. – Muito violento, filhinha, muito – respondeu ele, quando a menina se queixou de não assistir o final.

Ele saiu do carro e a ajudou a descer, com um vestido longo e comprido, deu um beijo em sua bochecha e pegou sua mão na dele, enquanto caminhavam pela nave da igreja cheia, com cheiro de flores, em direção ao altar. – Seja feliz, filhinha, bem feliz – encorajou o pai, enquanto se dirigia ao lugar reservado a ele na cerimônia.

Ela chegou em casa e o encontrou deitado na cama, coração parado, olho fechado, tempo mudo. Pegou as mãos do pai e as segurou por muito tempo entre as suas. Beijou sua cabeça, com cheiro dos cabelos grisalhos, deitou em seu ombro, e disse só para ele: – Dorme, paizinho, dorme. Em paz e até breve.

 

Papai

Beijei sua testa ainda quente, seu cabelo carregava o perfume do dia anterior, segurei sua mão já sem a aliança, olhei para você deitado e não acreditei. Como não acredito até agora. Mamãe chorava em ondas, meu irmão telefonava com os olhos vermelhos. – Ele morreu… Como assim? Não foi isso o combinado… Foi diferente, fizemos planos, estávamos no início da execução, e agora? Continuaremos sem você, sem sua graça, sua risada, sua voz, sua presença. Que dor indescritível. Só quem já passou por ela, sabe.

Deitei a cabeça em seu ombro enquanto vários amigos chegavam para acreditar, para ajudar, para abrir e fechar portas. O médico chegou, olhou de longe para você, atestou qualquer coisa, já não fazia diferença. A família chegou e aqui está. Levaram você para uma sala, nos levaram para a mesma sala e nosso espírito ardeu com o seu corpo. Você voltou para Niterói, como pediu, nós retornamos à casa vazia, sem você. Desde então, comemos suas empadinhas, bebemos seu vinho, olhamos seus retratos, ouvimos sua voz gravada em vídeos caseiros. Desde então, rezamos para que você esteja em paz, tentamos ficar em paz, tentamos falar palavras doces uns para os outros, quando o que desejamos mesmo é mandar tudo à merda. Eu sei que você não gosta de palavras chulas, mas o momento pede. O táxi não quer parar? Vai à merda. O jornal encrencou? Merda. O copo partiu? Merda. Milhares de providências a tomar? Merda. O vizinho reclamou? Merda. Falamos alto? Esse pede a palavra que você não gostaria de ler, então não escrevo. Mas está subentendida. Toda noite, a partir da hora em que você chegaria em casa, vem alguém e nos leva para longe ou nos faz companhia, um revezamento provavelmente articulado por você. Mamãe, abalada, reclamou: – Seu pai morreu e parece que estamos em festa! A tristeza que nos assola é tamanha que só o atordoamento alcoólico nos permite dormir algumas horas a cada dia. E quando abro os olhos no dia seguinte, não acredito, fecho de novo, gemo baixinho e vem aquela onda de embrulho no estômago. O mais estranho de tudo é olhar as pessoas na rua, alheias ao nosso sentimento de perda e ver os sorrisos, ouvir pedaços de conversas, perceber que a vida continua para elas, os blocos batucando, o Flamengo campeão, tudo isso, que não é pouco, é quase uma ofensa pessoal à nossa dor. Hoje vamos vencer mais um dia, vamos nos despedir, novamente, de você. Acho que a cada dia, iremos nos despedir um pouquinho de você, já que você não estará sentado na cabeceira, não dará sugestões, não estará presente para ver os netos crescerem. Dizem que nós nos acostumaremos com sua ausência, mas a saudade só crescerá. Não é um prognóstico positivo, uma vez que a saudade já é imensa. Vamos. Um dia de cada vez.