Encontro marcado

Podem dizer o que quiserem. A economia está ruim, os números maquiados, os protestos violentos, as manifestações perigosas, a roubalheira generalizada, o desânimo assustador. Podem repetir que em vez dos gastos com o futebol, o país deveria priorizar a educação, a saúde, o transporte e a educação. Podem exigir estradas seguras e menos impostos. Podem gritar que nada faz sentido no país do futebol. Podem dizer que não vai ter Copa. Para mim, que acho que peculato e seus primos deveriam ser crime hediondo, sem direito a fiança, e que acredito que os códigos penal e de processo penal estão com a validade vencida, vai ter um campeonato de futebol, não a Copa. A Copa que não vai acontecer é a mesma para a qual tínhamos compromisso acertado e assinado, que seria cheia de expectativas e risos, bandeira e hino, como tantas outras. A Copa na nossa língua, com o jeito alegre e colorido de nossa gente. A Copa pela qual você esperava desde 1950, quando, moleque, chorou de dor. A Copa que você tinha combinado conosco que iríamos assistir juntos, mas não pôde esperar. A bola vai rolar nos quatro cantos do país e você não vai ver. Nós tínhamos um encontro marcado, mas você fechou os olhos e, cansado, dormiu.

12 anos hoje

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Eu tive uma filha de quatro patas e pelo avermelhado que estaria fazendo doze anos hoje. Ela conseguiu tirar o melhor de mim em todos os sentidos. Fez-me rir com suas estrepolias e o olhar pidão, esteve presente nos momentos mais difíceis, queria aconchego e proximidade — e teve — e, com a cabeça deitada em minha perna, mostrava que tudo seria resolvido e a dor que eu sentia passaria — fosse o que fosse. Ela me ensinou a enxergar o mundo louco e tresloucado em que vivemos com mais gentileza. Foram muitas as histórias de companheirismo intenso e hoje sinto saudades de seu cheiro, do barulho de seus passinhos, do rebolar, da cara sonsa após travessuras, dos passeios, até mesmo do gelo que me dava quando eu descumpria algum trato ou horário costumeiro. Sinto saudades suas, Sheemarie. Esteja bem, iremos nos reencontrar.

Tarde demais

Reconheci cenas vistas nas ruas. Vi pessoas que levam o celular para o banheiro e só não entram no chuveiro com o dispositivo por motivos óbvios. Vi pessoas cada vez mais solitárias em seu individualismo. Vi pessoas que olham o mundo através de suas câmeras frenéticas, clicando fotos que não serão revisitadas. Vi comunidades e tribos que falam consigo mesmas porque abandonaram o hábito de dialogar, aquela velha interação com alguém. Vi pessoas falando para dentro. Vi pessoas falando para fora, vi pessoas ouvindo apenas o som de suas vozes porque perderam a capacidade de escutar. Vi pessoas tentando alcançar prazeres desamparados porque passaram a esperar demais dos outros e esses nunca chegam nem existem. Vi pessoas que ocupam o lugar que seria para dois na cama. Vi pessoas em caminhos intermináveis na direção do cume desabitado porque lá estariam protegidos das discordâncias nos diálogos que não mais importam. Vi desencanto nos olhos tristes de quem cansou de procurar algo ou alguém que não existe. Ouvi esperança no fiapo de voz insegura de quem acredita que descobriu uma felicidade alternativa. Ouvi trovoadas em céu claro e desânimo em risadas falsas. Vi dor no simples ato de encher os pulmões para respirar e continuar vivendo. Vi um sol que brilhava no campo vazio, porque não havia mais ninguém para apreciá-lo. Vi a imagem fantasiada do outro, produzida pela necessidade de compartilhar algo com qualquer um. Vi a impossibilidade de partilhar a fantasia de um só. Vi tristeza, desilusão e desencontro. Vi pedidos impossíveis. Vi pessoas melancólicas, presas nos estereótipos que criaram para si mesmas. Vi sombras e uma escala de cinza onde predominavam o amarelo e o marrom. Vi a esperança minguar frente a possibilidades utópicas. Vi a insistência no sonho não realizado. Vi tudo isso em Ela. Vi um pouco mais. Me vi também. Desliguei o celular, pedi uma taça de vinho, que chegou com o desejo de a ficção não espelhar a realidade. Não desta vez. Tarde demais.

Mais um carnaval…

Nada mais atual que a música de Chico, mais um carnaval para nos distrair das mazelas do país, nossa mãe não gentil, com a brava gente brasileira que quer a pátria livre sem morrer pelo Brasil. Vamos lá, pátria amada, idolatrada, salve salve, salve-se quem puder.

1000 dias sem ele

Falaram para rezarmos missa para iluminar seu caminho, disseram para tocarmos a vida e aproveitarmos a mudança, mostraram os dias ensolarados e quentes, pediram para acendermos velas, pularmos ondas, jogarmos palmas no mar, batermos tambores, homenagearmos santos e orixás. Afirmaram que a dor diminui, enquanto a saudade aumenta, indicaram leituras amenas e os filmes mais recentes. Mostraram músicas novas e cantaram para nos fazer rir. Fizeram festas e deram-nos presentes.

Só se esqueceram de nos ensinar a viver sem você.

A imagem encantada

Primeiros momentos à espera do sonho que me levará ao destino de múltiplas faces. Carrego no bolso a imagem encantada que, presenteada com afeto, muda a vibração do ser.

Em conversa com minha irmã, verificamos a diferença de vibração energética no último ano. Antes, o espírito de carregação dizia “tu deves” e agora o espírito de liberdade diz “tu queres”.

Não somente questões inspiradoras do desejo se impõem. Mostram-se, novamente, as garras do “eu quero” que sempre me fizeram andar para frente, viver minha vida de forma encantada, conseguir, muitas vezes, após árdua batalha, meus objetivos, ir e vir, trabalhar com prazer, fazer o que mais gosto, sonhar e concretizar sonhos que muitos sequer tiveram e outros jamais ousaram.