Tarjeta

Meu carro perdeu seu charme. Após seis anos carregando garboso a placa da serra, sendo único em minha garagem, minoria no meio do trânsito caótico da cidade grande, perdeu sua identidade, rasgou minha fantasia, ficou comum junto a tantos. Agora pode-se identificá-lo pelo número, pelo amassado na mala, pelo interior, mas não mais por sua tarjeta indicativa da cidade em que viveu e onde sonhou tanto. Agora, quando subir a serra, terá dúvidas nas curvas e não mais despertará inveja nos outros automóveis, tão turistas quanto ele. Não mais será tratado com reverência, como filho da terra, como conhecedor de todas as estradas que levam ao paraíso. Será mais um para atravancar as ruas estreitas em feriados, mais um usurpador da tranquilidade alheia. Após a tarjeta de sua placa ter sido arrancada sem cerimônia pelo sujeito truculento, apenas dois elos me ligam à serra de minha vida.

Não Reconheço

Não te reconheço em ti. Não te busco porque não te encontro. Não sei onde estás, onde fostes te esconder, como chegastes aí. Mais além, porque chegastes aí. Porque resolvestes fechar tanto a mão por amor. Fechastes mãos, boca, portas, janelas, compartilhar tuas dores nunca foi teu forte, mas tua concha, que aparenta estar aberta, está fechada para olhares mais atentos. É possível que mesmo tu não tenhas percebido as portas cerradas. Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, como a castigares a ti e aos teus, como se o modelo antigo tivesse te exaurido, como se o modelo novo te aprisionasse, como não houvesse saída, como se a essência houvesse mudado e a essência não muda, lembras? Tua essência sempre foi liberdade, sol, improviso e riso. Não encontro tua essência. Acreditas que o problema está nos outros, mas os outros são tantos e com os mesmos problemas que cabe a pergunta: O problema está só nos outros? Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, numa constante faxina material como se arrumar o exterior organizasse o interior. Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, como se não existisse uma imensa e larga escala de cores entre o preto o branco, entre a convergência total e a ausência de todas as cores. Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, aguardo. Dias melhores virão.

Como falar de amor?

Como falar de amor se ele adormeceu, dopado por uma dose cavalar de clonazepam? Como falar de amor se ele viajou, tirou férias de mim, retirou-se de cena e me disse, baixinho, que não sabe se volta? Como falar de amor com contas a pagar, com o buraco do peito que desceu para o bolso? Como falar de amor com o menino mortinho de tanto cheirar cola, estirado na calçada, com transeuntes virando a cara? Como falar de amor com o velhinho desconhecido, deitado na maca na esquina da minha rua, ambulância do Samu com sirenes ligadas? Como falar se o erro foi maior que o acerto, se o pijama era três números menor, se a roupa branca não serve mais? Como falar se a ficha caiu, a chuva caiu, a conexão caiu, e eu, caída no chão, emprego imenso esforço para me levantar? Como falar se o olho enche de água só de pensar, se o queixo treme,  os óculos escuros do disfarce largados em outra bolsa? Como falar se eu esqueci tudo e não sei onde estou? Como se eu fui largando pedaços de mim pelos caminhos, não usei miolo de pão, não marquei trilha para voltar? Como falar de amor se o grito é de dor? Como falar se a Fé me escapa entre os dedos, se ando olhando para baixo, se os ombros estão curvados com tanto peso? Como falar de amor se o que sinto é medo, se o que enxergo é negro, se o que ouço é nada? Como falar de um mundo coletivo, colorido, se não consigo rastejar para fora do meu particular em preto e branco? Como falar de algo que se dá, se eu não sei receber? Como falar de grandes e complexas construções se meu lego veio incompleto, se as peças não encaixam? Como falar de tintas e cores e pincéis se eu não tenho onde pintar, se eu não consigo pintar? Como falar de amor se eu não sei onde o deixei?

Cansei

Cansei das brigas e discussões. Cansei dos mal-entendidos em que não adianta tentar explicar que não era bem aquilo. Cansei da chuva que não para de cair e deixa tudo molhado, encharcado, deixa o beco com cheiro de mistura de xixi e cerveja da semana passada. Cansei de sentir dores. Dores nos braços, nas pernas cansadas, com veias saltadas, na barriga endurecida, no peito a dor que não passa. Cansei de me entupir de remédios para acordar, para dormir, para comer, para não sentir dor, para voltar a sentir. Quatorze vidros enfileirados em cima da mesa da cozinha esperam por mim. Cansei. Cansei de estar com as janelas gradeadas, com as portas trancadas, com o telefone à mão. Cansei. Cansei de arrastar meus pés até o banheiro, até a sala, até a cozinha e retornar mais cansada. Cansei. Cansei da TV só funcionar em um canal que não assisto. Cansei de tomar banho. Cansei de trocar de roupa. Cansei de escovar os dentes. Cansei do cheiro de suor pela falta de banho. Cansei de falar uma lingua que ninguém entende. Cansei de mexer meus olhos e não ser compreendida. Cansei de abrir a boca e não conseguir falar. Cansei dos latidos que vêm do vizinho. Cansei das crianças que tocam a campainha e saem correndo. Cansei de tudo isso e um pouco mais. Hoje será minha última noite. Cansei. Amanhã não acordo mais. Cansei. Permanecerei cansada.

Raiva

A raiva que senti foi indescritível. Sem medidas de tempo, espaço ou tamanho. De dentro do estômago brotou a onda nauseabunda de frango, milho, cerveja e raiva, transformando-se em tsunami vomitada em seu rosto, em seu cabelo, em seu colo, tirando-me a cor do corpo e tingindo minha cara de vermelho cor-de-esmalte-descascado. Você recuou dois passos, levantou os braços, pediu calma, olhou para as próprias roupas nojentamente molhadas, fedidamente empapadas, mas não se olhou no espelho, não viu sua cara de mentiroso nojento, de mentiroso contumaz, de mentiroso desleal. Desleal! Eu deveria ter jogado o espelho em você, para que dessa vez, pelo menos dessa única vez, você conseguisse enxergar o que todo mundo vê, menos você. E eu. Até então. Não mais. Abri a porta da casa, expulsei adão do paraíso, vassoura em punho, varri seus cacos pela escada, atirei suas coisas no jardim, tal clichê de novela, soltei os cachorros e ameacei chamar a polícia. Janelas vizinhas se entreabriram, olhos curiosos avistaram a baixaria há tanto aguardada no bairro, a notícia correria rápido antes do dia amanhecer, mas você já estaria longe, num caminho sem retorno. Desejei que seu carro espatifasse na primeira curva, ansiei para que rolasse ribanceira, enxerguei seu corpo inerte no caixão, sem mais possibilidade de fazer mal a ninguém, mesmo que esse alguém quisesse sentir a força de sua maldade, o tamanho de sua deslealdade, a sua capacidade de trair sorrindo. Com o sorriso de menino que tantas vezes achei ser meu, mas que agora jazia no fundo do poço dos desalmados. Pedi para que você morresse porque assim a dor da traição seria trocada pela dor do nunca mais, mas você saiu rápido de cena, desapareceu na bruma e não ousou voltar. Ainda vive. Ainda é capaz de levar seu sorriso sociopata a outro alguém. Morreu lentamente para mim, que já não sinto raiva, não falo seu nome, não lembro de sua voz, esqueci seu rosto.

Copos de Cristal

Encho a boca com o primeiro gole de uísque do dia, desce forte e quente, bebo sem gelo. Dou o segundo e o terceiro goles e emito um som de repulsa e satisfação ao mesmo tempo. A lembrança do primeiro gole me vem à mente e encho novamente o copo. Caminho, ainda inteiro, até a varanda, sem sol, lusco-fusco, anoitece na cidade que não dorme. O segundo copo, em três longos goles, desce mais fácil e eu o encho pela terceira e quarta vezes. Sirenes me fazem olhar para a rua movimentada e imagino como seria me desequilibrar e cair do alto de 20 andares. Acho que viraria sopinha de gente e quebraria em mínimos cacos o copo de cristal que seguro, herança de família. O que seria pior? Limpar a sujeira de meu sangue espalhado pelo pátio da piscina ou encontrar os caquinhos de cristal que ferirão as crianças descalças que forem brincar quando a área for liberada? Oops! O equilíbrio foi embora, agora tenho que me escorar nas paredes para encher, talvez, já perdi a conta, o sexto copo da noite. Vejamos: o primeiro foi lá pelas dezoito horas e são… quase oito da noite. Nada mal… Not bad at all… Seis doses do mais puro scotch em menos de duas horas… Como não comi nada durante o dia, geladeira vazia, o efeito é mais rápido e como o álcool me afeta sobremaneira – será que sou um alcóolico? – já não falo coisa com coisa. Mas não falo nada, é só meu pensamento que ecoa em minha cabeça. Acho que o vizinho ligou uma música. Ou será que fui eu que deixei o aparelho ligado desde, desde… quando mesmo? Acho melhor me afastar da grade da varanda. Tropeço em meu caminho e o copo da família espatifa no chão. Rio, gargalho muito, lá se vai o conjunto completo… Conjunto completo, herança de família, nunca mais! Continuo rindo e pego outro copo, encho á está no fim, amanhã terei que lembrar de não andar descalço por aqui.