Eram os anos 1990 e eu flanava despreocupada pelos jardins e galerias do Estoril, onde havia sido instalada uma exposição com obras de Carybé. Fim de tarde, a mostra ainda não estava oficialmente aberta, portanto as salas mantinham-se vazias. Passeei, admirando tudo, com as mãos no bolso e o coração cheio de saudades quando estaquei em completa veneração. À minha frente, como se estivesse em casa, caminhava o autor das obras, rindo ao lado de Jorge Amado e Zelia Gattai. Imobilizada pela emoção permaneci e até hoje me arrependo de não ter tido a coragem de abordar, tietar e agradecer a existência de meus ídolos.
Tudo muda
A primeira vez em que li, ele se chamava Leon e sua Ana tinha só um ene. Naquele tempo, os russos eram traduzidos do francês para o português e se na tradução de uma obra de uma língua para outra já se perdem características originais como fluidez, ritmo, métrica, só para citar algumas, imagina traduzir a tradução.
Eu tive um professor que dizia que “mudar de ideia é evoluir” e aquilo ficou de tal forma marcado em mim, como uma ordem suprema, que insisti em seguir o seu mandamento para ver se eu conseguia me transformar um pouquinho. Para isso, travo constantes batalhas comigo mesma, sempre me perguntando: acertei? errei? gosto? poderei gostar? De três em três anos ainda provo dobradinha só para confirmar que não gosto. Acho que dessa nunca poderei gostar. Entretanto, tergiverso. Volto.
E volto à leitura de Anna Kariênina, agora com dois enes, não mais Karenina, não mais de Leon e sim de Liev Tolstói, em tradução do russo por Rubens Figueiredo, editora Cosac Naify, só para constatar que a forma mudou, mais bela, mais próxima do que poderíamos alcançar em uma tradução das tradições russas do século XIX, mas a essência que me arrebatou há tantos anos lá permanece.
Aviso para quem gosta de ler deitado: o livro pesa mais de um quilo, uma almofada no abdome se faz necessária.
Chegada
Desde todo o sempre havia imaginado o que sentiria, como seria a sua chegada. Imaginava cenas, contava passos, trocava olhares, antecipando a sensação do momento, antecipando a emoção sentida.
Desde o início, senti que seria meio mágico, meio trágico; senti que seria tudo ou nada, não seria meio termo. Sentia as cores, ouvia sons que fariam parte do momento; tudo seria marcado pela espontaneidade, de acordo com o imprevisível, em parceria com o desconhecido.
Desde o primeiro momento, sua chegada era aguardada, ansiada, precisada. Muito tempo depois de partir foi que encontrei seus olhos, olhei no fundo mais fundo de seus olhos e o vi, o enxerguei. Olhamos-nos rapidamente, balançamos a cabeça e soubemos, então, que nossas vidas estariam para todo o sempre ligadas de alguma forma forte e única de nós mesmos.
Quando vi seus olhos me olhando, febris, insones e incendiários, não consegui desviar, não consegui deixar de olhar. Quando entendi que nada compreendia, que não aceitava, abaixei meus olhos para mim mesma, debrucei sobre meu íntimo, descobri minha alma e viajei por lugares não visitados, revisitei lugares conhecidos, que na aurora de meus dias me impulsionaram para a frente e me fizeram crescer.
Quando pegou minha mão e entre seus dedos esquentou os meus, energia forte, ouvimos sons e trovoadas internas sacudiram a razão da impossibilidade e nos deixaram a sós, a decidir nosso tempo, a descobrir ou tentar descobrir o que viria pela frente.
Hoje, quando volto aos lugares conhecidos de tanto tempo, não sei ao certo se tudo não passou de um sonho que ainda vivo, ou se é a vida de verdade que vivo como se fosse um sonho, por vezes manchado de escuro, uma sinfonia inacabada, um sax a me guiar o caminho de volta a superfície.
Desejo 2
No momento em que você me olhou de volta, com a entrega estampada em seu rosto, eu soube. Você não voltou, chegou. Chegou a um lugar há muito procurado, há tanto almejado. Seu olhar foi de eternidade no minuto, olhar de súplica, desejo e promessa. Você me olhou de perto, bem perto, pela primeira vez, e não houve sombra ou dúvida, estava dito pelos seus olhos. A partir dali, tudo foi encaixe, quando eu segurei sua mão, perguntei porque demorara, quando envolvi seu corpo com meus braços, aconcheguei meu rosto no seu e beijei sua boca com intensidade e delicadeza. Meu beijo tinha gosto de vinho conhecido, tinha gosto de beijo novo, tinha gosto. Meu gosto. Você estremeceu e sorriu para mim, um sorriso só meu. Segurei seus cabelos e seu pescoço com firmeza, olhei de volta para você e mostrei que seu lugar era lá, perdida em meu abraço. Ou encontrada, em meus braços.
Terceiras impressões de São Paulo
Outro dia achei que tinha ouvido a sua voz. Era tão nítido, era tão forte, que cheguei a sonhar – um sonho colorido, multicolor,
nuances diferentes e luzes incandescentes. Como um capricho inusitado, sonhei que estava frente a frente com você. Não havia mais ninguém, só você. E quando me virei era como se tentasse agarrar o último suspiro, o último olhar não trocado, a esperança que não vingou e enclausurou o coração. Quando olhei de novo, você desaparecera. O abajur aceso, tateei e apaguei a luz.
Segundas impressões de São Paulo
Diferente do Rio, diferente em tudo. Procuro os olhos brilhantes, com sonhos crianças, com esperança de graça, mas não encontro. Procuro o bronzeado moreno, o jogo de bola, o campinho sem grama e vejo edifícios brancos e estádios monumentais. No meio da cidade, olho em volta e não me encontro. Resta esperar um pouco, acenar com a mão e entrar no táxi. Dentro do carro, o motorista me lança olhares furtivos pelo retrovisor, querendo adivinhar de onde venho. Mas segue seu caminho sem aumentá-lo, pois sei por aonde ir.
Chego ao meu destino, pago e agradeço e ele me olha como querendo adivinhar o que faço longe de casa. Entro em uma livraria e olho seus livros, acaricio cada um deles, escolho, pago e saio. Procuro, em três bancas de jornal, cartão postal de São Paulo, mas o que acho são cartões do Cristo Redentor, da Baía de Guanabara.
Pela rua empoçada, caminho imaginando o que fazer. Tento ainda uma vez descobrir os bares e seus habituais, mas desisto. A noite já caiu de toda e tenho um Encontro Marcado com Fernando Sabino.