Domingo, 22 horas, um grupo de velhinhos, bem velhinhos, bengala e tudo, conduzidos por um guia maestro, após terem vindo de algum lugar em três vans para verem a árvore de Natal da Lagoa, parou em frente ao prédio e começou a entoar cantigas de Natal e fim de ano. Depois que o maestro terminou o concerto inesperado, fez com que todos se abraçassem e se beijassem, desejando bons sentimentos. Sorrisos em bocas cantantes, lotaram as vans e foram embora. Lindo.
300 dias sem ele – parte 2
Encontrei, e ainda encontro, pedacinhos de você por toda a casa. É como se tivesse feito de propósito, para que não houvesse chance de esquecê-lo. Bem diria aquela nossa piada interna “mas isto é uma bstéira, senhor engenheiro!” (em sotaque português). Não há dia ou momento que não pensamos em como seria bom se você estivesse aqui. Li um trecho do Eco que você, com certeza, pediria: “Filhinha, copia pra mim?”. Copio: “Eu não sei, certamente hoje as pessoas veem muita televisão, e existem indivíduos de risco que não veem nada além de televisão, assim como existem indivíduos de risco que gostam de injetar substâncias mortais na veia”. Quando li o trecho, olhei para trás porque escutei a sua risada, Umberto Eco colocando no mesmo cesto gente que assiste muita TV e viciados em drogas injetáveis. Você teria rido. Você riu.
Fevereiro e março esgotaram nossas lágrimas e nossas forças. Não injetamos drogas, mas a TV não descansou um instante, falando para as paredes, enquanto tentávamos esvaziar a cabeça repleta de listas de providências que, se foram diminuindo com o tempo, ainda resistem através de pessoas surdas à nossa dor e incompetentes para o trabalho. Esvaziamos seus armários e algumas estantes. Calma, fique tranquilo, os livros que foram dados não serviriam a ninguém aqui e ajudaram uma moça a começar vida nova. Eu sei que dessa parte você gostou. Sempre foi o seu forte, ajudar alguém. Sempre ajudou. O rapaz das frutas no sinal, que chorou em meu ombro, o manobrista, que chorou em seu ombro sem vida, o antigo porteiro, que liga para saber como estamos, todos que tiveram a sorte e o privilégio de conviver com você.
O primeiro aniversário foi logo o de mamãe, dez dias após sua partida. Encontramos a sua anotação do presente, fomos até a loja, contamos a história e as atendentes não seguravam a emoção. Na reunião familiar, mamãe, consumida por sua ausência, reclamou: “Seu pai morre e nós damos festa? O que vão pensar?” Na verdade, naquele momento, não existiam os outros, que pensassem o que quisessem. E não era festa, era atordoamento.
No carnaval tardio deste ano, tranquei-me em casa com uma pilha de livros e filmes. Fechei janelas e ouvidos, não queria saber daquela alegria de rua que ofendia minha dor. Sandra me obrigou a terminar a tese, que eu havia desistido de concluir, e tive de desistir de desistir. Pelo skype, palavra por palavra, ela leu, corrigiu, incentivou, puxou. Dediquei-a a você e, um dia, talvez, possa transformá-la em livro. Marcia empacotou minha casa, contratou o frete, fez minha mudança e, quando acordei, nossa sala tinha virado um imenso depósito de caixas e móveis. Levamos um pouco de tempo para arrumar tudo e hoje, que está tudo arrumado, eu não sei onde está nada. Mas também não importa, eu só queria saber onde está você.
Em abril, no aniversário do Leandro, Búbi fez uma reunião surpresa na casa de amigos, todo mundo sabia, menos o seu menino. Pedro e Gabi pregando peça no pai para levá-lo ao local foi tão engraçado. E ele nem desconfiou. Quando chegou e nos viu, porque mamãe também foi, ficou bem surpreso. Que mesa bonita ela arrumou, quanto carinho e quanto amor. Três semanas depois chegou o meu. Será que não dava para pular do dia 1 para o dia 3? Mamãe achou que não dava e começou a fazer uma lista para o jantar. Tudo o que ela sugeria, eu dizia não, não quero, não gosto. Na verdade, eu não queria nada, mas já que iria acontecer, fizemos um jantar em família. Só família, quem veio sabe. Foi o primeiro em que tiramos fotos. Tiramos, não, ganhamos fotos. Nossa família cresceu, com a chegada de amigos com quem você teria adorado conversar.
Maio é um mês repleto de datas significativas, dia das mães, os aniversários do Sul, Gabi no fim do mês. O mês se mostrou interminável, entre os telefonemas, encontros, noites reunidas, novidades que você não viu, notícias que você não soube, momentos marcados pela sua ausência. Ausência. No Houaiss, a primeira definição de ausência é “afastamento temporário de alguém do domicílio, dos lugares que frequenta etc.” A palavra que não completa nossa sentença é “temporário”. A sua partida não é temporária, a nossa saudade não é temporária, o nosso amor por você não é, nunca foi temporário.
E, no meio de tanta dor, julho chegou, trazendo a família toda para o Rio, após tantos anos, para o encontro que você estava planejando com tanta alegria. Só não ficou para ver.
90 minutos
Quando me avisaste, “chegarei amanhã”, comecei a pedir: “céu, não chora”. Queria que visses o Rio em sua beleza plena de dezembro. Queria que fosse um dia luminoso, ensolarado, com a quentura dos trópicos, mas não foi possível. Choveu um pouquinho. Fui ao teu encontro, vi teu mesmo sorriso tímido e ouvi tua voz mais calma. No entanto, noventa minutos passaram voando em nossa conversa sem ecos de gerúndio e quanto mais falávamos, menos dizíamos. Esqueci de te perguntar qual a música que ouves agora, como é o nome daquela praia na foto, quem são teus amigos mais chegados, o que lês, de que filme gostas, qual será o título do livro que ainda não escreveste. Não contei de meus amigos, do retorno de momentos alegres, dos meus gostos. Falamos de aviões, de contratos, editoras e carnaval. De vida longe e, muito rapidamente, de vida vivida. Falamos de saudade, que me fez sentir mais saudade. Pressa, pressa, pressa, pena. Promesteste que voltarás. Dois-três, cinco-seis, nove-dez dias. Volte.
300 dias sem ele – parte 1
Eternidade. Você está no lugar a que chamamos de eternidade; a sensação que tenho é que faz uma eternidade e, no entanto, foi ontem. Minha memória falha, que me impede de reconhecer pessoas, nomes e de lembrar de situações, é competente quando olho pelo ombro e me vejo, naquela quinta-feira, arrumando as sacolas de fim de semana, com roupas, comida da Shee, note e papéis da monografia, esperando a sua carona, nós três chegando em nossa casa carregados para uns dias em família. Você sentado na poltrona que agora é minha, sim, é minha, nela colei meu nome, virou piada na família. Em nossa quarta última noite, vimos TV, lanchamos e conversamos alguma bobagem. É bem provável que eu estivesse meio rabugenta ou meio ensimesmada, não importa. Não sabia que nos restava pouco tempo. Nunca sabemos, não é mesmo? Por isso, você sempre foi incapaz de sair de casa brigado com um de nós. Quantas vezes, eu-menina ouvi você repetir que não deveríamos guardar a zanga, porque não sabíamos o que poderia acontecer no minuto seguinte? Pensando bem, você deve ter começado a agir assim após a morte violenta de seu irmão, em um acidente de carro. Irmãos não poderiam partir sem aviso.
No dia seguinte, você foi trabalhar, como de costume, e eu fiquei em casa com mamãe e Shee, um prenúncio da mudança que aconteceria em nossa vida, tentando colocar as ideias da tese no note. Minha agenda marca que cortei o cabelo naquele dia, mas eu não me lembro, lógico, e no início da noite fui para a porta do teatro esperar Pedro para assistirmos ao musical Hair. Ele gostou, apesar do sono menino que o fez cabecear o ar algumas vezes. Voltamos para casa juntos e você queria saber tudo, o que ele tinha achado, as músicas, como era a montagem de 2010, já que você e mamãe assistiram a de 1970, com Armando Bógus e outros. Soubemos depois que, naquela sexta, nossa terceira última noite, quando pegou o carro na garagem do trabalho com o Bruno, disse para ele que ainda queria viver muito para ver a sua neta moça. E ele, ao entregar o carro respondeu que sim, você veria sua neta moça e o filho dele que estava para nascer. Os dois não poderiam estar mais errados. Mas não sabíamos, não é?
No sábado, dia 19, ficamos em casa. Como o irmão tinha assistido à peça, quando Gabi soube que eu tinha o filme fez tudo para assistir. Depois do almoço, na hora da siesta da maioria da família, nós duas vimos o filme, e cantamos as músicas, e dançamos em cima do sofá. Fechamos todas as portas para ouvir o som bem alto e combinamos que quando aparecesse gente pelada no filme ela fecharia os olhos. E ela fechou. Sua neta é realmente o máximo. À noite, nossa penúltima noite, após o lanche, você quis assistir ao Bravura Indômita e eu cheguei a pensar que você não resistiria de sono. Que nada, assistiu com Pedro ao seu lado e os dois adoraram o filme. Eu sei que você sempre gostou do estilo western movie. Fomos dormir tarde e nem conversamos muito, mas não sabíamos que o nosso tempo estava em contagem regressiva, não é?
O domingo nos despertou na maior preguiça, ficamos nós oito (Shee incluída), naquela moleza de dia de verão no Rio, almoçamos juntos, na TV passava um jogo qualquer, porque nas TVs do Leandro há sempre gol, lembra? Ele deve comprar um modelo especial, que já vem com coleção de gols. Como ríamos dessa piada boba que você dizia! Aliás, como sempre rimos com você. Na troca de copos de vinho, no pé estendido para tocar a mão do outro, nos bilhetinhos espalhados, bobagens pequeninas familiares que fazem a vida ter outro gosto. No fim do dia, nossa última noite, você fez tudo para eu dormir em casa, disse que me daria carona na manhã seguinte e só não fiquei porque você iria insistir para entrar com o carro naquela viela e eu fiquei com medo de você bater nos carros estacionados. Fui embora com Leandro. Perdi algumas horas de noite com você, quando poderíamos ter conversado como sempre fizemos, mas não sabíamos, não é?
Você não faz ideia de quantas vezes me arrependi de ter ido. Na última vez em que comentei o assunto com mamãe, ela em sua sabedoria materna disse: “Não era para você estar aqui naquele momento. Simplesmente não era”. E naquela segunda-feira de sol, calor e dia lindo, você acordou, levantou, foi ao banheiro, comentou com mamãe que se sentia resfriado e por nada sairia da cama para trabalhar. Deitou, fechou os olhos e partiu.
Curtinha 2
Sobrinha de oito anos, em conversa distraída, para a tia:
– Alguns amigos disseram que querem me comer.
Tia, alarmada, disfarçando, pergunta:
– O que foi, meu amor?
Sobrinha, sorrindo, repete:
– É… Alguns amigos disseram que querem me comer.
Tia, já suando, pergunta:
– E por que seus amiguinhos disseram isso para você?
Sobrinha abre um sorriso lindo e fala:
– É porque eles disseram que eu devo ter chocolate em minhas veias.
Curtinha
Na calçada, o homem grita, enquanto aponta, para os dois guardadores de carro, do outro lado da rua:
– Isso aí não é vaga não, é?
Um dos guardadores responde:
– Vaga é, moço, mas para um carro bem pequenininho. – E mostra o tamanho, na distância entre os próprios dedos polegar e indicador, como se estivesse segurando uma caixinha de fósforos.
Parou uma moto.