300 dias sem ele – parte 2

Encontrei, e ainda encontro, pedacinhos de você por toda a casa. É como se tivesse feito de propósito, para que não houvesse chance de esquecê-lo. Bem diria aquela nossa piada interna “mas isto é uma bstéira, senhor engenheiro!” (em sotaque português). Não há dia ou momento que não pensamos em como seria bom se você estivesse aqui. Li um trecho do Eco que você, com certeza, pediria: “Filhinha, copia pra mim?”. Copio: “Eu não sei, certamente hoje as pessoas veem muita televisão, e existem indivíduos de risco que não veem nada além de televisão, assim como existem indivíduos de risco que gostam de injetar substâncias mortais na veia”. Quando li o trecho, olhei para trás porque escutei a sua risada, Umberto Eco colocando no mesmo cesto gente que assiste muita TV e viciados em drogas injetáveis. Você teria rido. Você riu.

Fevereiro e março esgotaram nossas lágrimas e nossas forças. Não injetamos drogas, mas a TV não descansou um instante, falando para as paredes, enquanto tentávamos esvaziar a cabeça repleta de listas de providências que, se foram diminuindo com o tempo, ainda resistem através de pessoas surdas à nossa dor e incompetentes para o trabalho. Esvaziamos seus armários e algumas estantes. Calma, fique tranquilo, os livros que foram dados não serviriam a ninguém aqui e ajudaram uma moça a começar vida nova. Eu sei que dessa parte você gostou. Sempre foi o seu forte, ajudar alguém. Sempre ajudou. O rapaz das frutas no sinal, que chorou em meu ombro, o manobrista, que chorou em seu ombro sem vida, o antigo porteiro, que liga para saber como estamos, todos que tiveram a sorte e o privilégio de conviver com você.

O primeiro aniversário foi logo o de mamãe, dez dias após sua partida. Encontramos a sua anotação do presente, fomos até a loja, contamos a história e as atendentes não seguravam a emoção. Na reunião familiar, mamãe, consumida por sua ausência, reclamou: “Seu pai morre e nós damos festa? O que vão pensar?” Na verdade, naquele momento, não existiam os outros, que pensassem o que quisessem. E não era festa, era atordoamento.

No carnaval tardio deste ano, tranquei-me em casa com uma pilha de livros e filmes. Fechei janelas e ouvidos, não queria saber daquela alegria de rua que ofendia minha dor. Sandra me obrigou a terminar a tese, que eu havia desistido de concluir, e tive de desistir de desistir. Pelo skype, palavra por palavra, ela leu, corrigiu, incentivou, puxou. Dediquei-a a você e, um dia, talvez, possa transformá-la em livro. Marcia empacotou minha casa, contratou o frete, fez minha mudança e, quando acordei, nossa sala tinha virado um imenso depósito de caixas e móveis. Levamos um pouco de tempo para arrumar tudo e hoje, que está tudo arrumado, eu não sei onde está nada. Mas também não importa, eu só queria saber onde está você.

Em abril, no aniversário do Leandro, Búbi fez uma reunião surpresa na casa de amigos, todo mundo sabia, menos o seu menino. Pedro e Gabi pregando peça no pai para levá-lo ao local foi tão engraçado. E ele nem desconfiou. Quando chegou e nos viu, porque mamãe também foi, ficou bem surpreso. Que mesa bonita ela arrumou, quanto carinho e quanto amor. Três semanas depois chegou o meu. Será que não dava para pular do dia 1 para o dia 3? Mamãe achou que não dava e começou a fazer uma lista para o jantar. Tudo o que ela sugeria, eu dizia não, não quero, não gosto. Na verdade, eu não queria nada, mas já que iria acontecer, fizemos um jantar em família. Só família, quem veio sabe. Foi o primeiro em que tiramos fotos. Tiramos, não, ganhamos fotos. Nossa família cresceu, com a chegada de amigos com quem você teria adorado conversar.

Maio é um mês repleto de datas significativas, dia das mães, os aniversários do Sul, Gabi no fim do mês. O mês se mostrou interminável, entre os telefonemas, encontros, noites reunidas, novidades que você não viu, notícias que você não soube, momentos marcados pela sua ausência. Ausência. No Houaiss, a primeira definição de ausência é “afastamento temporário de alguém do domicílio, dos lugares que frequenta etc.” A palavra que não completa nossa sentença é “temporário”. A sua partida não é temporária, a nossa saudade não é temporária, o nosso amor por você não é, nunca foi temporário.

E, no meio de tanta dor, julho chegou, trazendo a família toda para o Rio, após tantos anos, para o encontro que você estava planejando com tanta alegria. Só não ficou para ver.

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