300 dias sem ele – parte 1

Eternidade. Você está no lugar a que chamamos de eternidade; a sensação que tenho é que faz uma eternidade e, no entanto, foi ontem. Minha memória falha, que me impede de reconhecer pessoas, nomes e de lembrar de situações, é competente quando olho pelo ombro e me vejo, naquela quinta-feira, arrumando as sacolas de fim de semana, com roupas, comida da Shee, note e papéis da monografia, esperando a sua carona, nós três chegando em nossa casa carregados para uns dias em família.  Você sentado na poltrona que agora é minha, sim, é minha, nela colei meu nome, virou piada na família. Em nossa quarta última noite, vimos TV, lanchamos e conversamos alguma bobagem. É bem provável que eu estivesse meio rabugenta ou meio ensimesmada, não importa. Não sabia que nos restava pouco tempo. Nunca sabemos, não é mesmo? Por isso, você sempre foi incapaz de sair de casa brigado com um de nós. Quantas vezes, eu-menina ouvi você repetir que não deveríamos guardar a zanga, porque não sabíamos o que poderia acontecer no minuto seguinte? Pensando bem, você deve ter começado a agir assim após a morte violenta de seu irmão, em um acidente de carro. Irmãos não poderiam partir sem aviso.

No dia seguinte, você foi trabalhar, como de costume, e eu fiquei em casa com mamãe e Shee, um prenúncio da mudança que aconteceria em nossa vida, tentando colocar as ideias da tese no note. Minha agenda marca que cortei o cabelo naquele dia, mas eu não me lembro, lógico, e no início da noite fui para a porta do teatro esperar Pedro para assistirmos ao musical Hair. Ele gostou, apesar do sono menino que o fez cabecear o ar algumas vezes. Voltamos para casa juntos e você queria saber tudo, o que ele tinha achado, as músicas, como era a montagem de 2010, já que você e mamãe assistiram a de 1970, com Armando Bógus e outros. Soubemos depois que, naquela sexta, nossa terceira última noite, quando pegou o carro na garagem do trabalho com o Bruno, disse para ele que ainda queria viver muito para ver a sua neta moça. E ele, ao entregar o carro respondeu que sim, você veria sua neta moça e o filho dele que estava para nascer. Os dois não poderiam estar mais errados. Mas não sabíamos, não é?

No sábado, dia 19, ficamos em casa. Como o irmão tinha assistido à peça, quando Gabi soube que eu tinha o filme fez tudo para assistir. Depois do almoço, na hora da siesta da maioria da família, nós duas vimos o filme, e cantamos as músicas, e dançamos em cima do sofá. Fechamos todas as portas para ouvir o som bem alto e combinamos que quando aparecesse gente pelada no filme ela fecharia os olhos. E ela fechou. Sua neta é realmente o máximo. À noite, nossa penúltima noite, após o lanche, você quis assistir ao Bravura Indômita e eu cheguei a pensar que você não resistiria de sono. Que nada, assistiu com Pedro ao seu lado e os dois adoraram o filme. Eu sei que você sempre gostou do estilo western movie. Fomos dormir tarde e nem conversamos muito, mas não sabíamos que o nosso tempo estava em contagem regressiva, não é?

O domingo nos despertou na maior preguiça, ficamos nós oito (Shee incluída), naquela moleza de dia de verão no Rio, almoçamos juntos, na TV passava um jogo qualquer, porque nas TVs do Leandro há sempre gol, lembra? Ele deve comprar um modelo especial, que já vem com coleção de gols. Como ríamos dessa piada boba que você dizia! Aliás, como sempre rimos com você. Na troca de copos de vinho, no pé estendido para tocar a mão do outro, nos bilhetinhos espalhados, bobagens pequeninas familiares que fazem a vida ter outro gosto. No fim do dia, nossa última noite, você fez tudo para eu dormir em casa, disse que me daria carona na manhã seguinte e só não fiquei porque você iria insistir para entrar com o carro naquela viela e eu fiquei com medo de você bater nos carros estacionados. Fui embora com Leandro. Perdi algumas horas de noite com você, quando poderíamos ter conversado como sempre fizemos, mas não sabíamos, não é?

Você não faz ideia de quantas vezes me arrependi de ter ido. Na última vez em que comentei o assunto com mamãe, ela em sua sabedoria materna disse: “Não era para você estar aqui naquele momento. Simplesmente não era”. E naquela segunda-feira de sol, calor e dia lindo, você acordou, levantou, foi ao banheiro, comentou com mamãe que se sentia resfriado e por nada sairia da cama para trabalhar. Deitou, fechou os olhos e partiu.

 

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