Vinte anos sem nós

E num piscar de olhos os anos voaram, passaram sem que sentíssemos, sentindo minuto a minuto que não estávamos ali onde éramos suposto estar. Não há fotos, não há lembranças, não há momentos passados, não há risos inesquecíveis. Não estivemos juntos nos casamentos, nascimentos, no crescimento, não vivemos.

Vinte anos sem nós mesmos. E agora, o outono, já no inverno, tentamos rir o que ficou preso, beber os brindes não feitos, até cair, literalmente, no chão, rolados da cama. Somos carregados no colo das emoções não vividas e choramos novamente quando o tempo voa e é hora de partir. Cada um em um canto do planeta, tentando reconstruir em breves reencontros o lego familiar que ficou sem telhado.

A lacuna irrecuperável em nossa linha da vida, essa jamais será preenchida, já passou e não estávamos lá.

Outono no Rio

Eu e Shee vagamos por um mundo em tons de cinza, bruma e cheiro de grama orvalhada, caminhamos pela estrada reta, não enxergamos seu fim, continuamos passo a passo, firmes em nosso propósito de não pararmos. Ela vai com o focinho parecendo um limpa trilhos de trem, cheirando tudo, mas firme em frente. Subimos e descemos pequenas elevações, e continuamos fortes em frente. Não tem fim essa estrada, o sol já esteve atrás de nós, já esteve por cima de nós, agora começa a baixar lá na frente, em breve virá o lusco-fusco, em seguida a escuridão, a estrada em que andamos não tem iluminação, talvez não tenha luz e continuamos em frente. É outono no Rio e eu acordo empapada em suor de tanto andar.

Não Reconheço

Não te reconheço em ti. Não te busco porque não te encontro. Não sei onde estás, onde fostes te esconder, como chegastes aí. Mais além, porque chegastes aí. Porque resolvestes fechar tanto a mão por amor. Fechastes mãos, boca, portas, janelas, compartilhar tuas dores nunca foi teu forte, mas tua concha, que aparenta estar aberta, está fechada para olhares mais atentos. É possível que mesmo tu não tenhas percebido as portas cerradas. Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, como a castigares a ti e aos teus, como se o modelo antigo tivesse te exaurido, como se o modelo novo te aprisionasse, como não houvesse saída, como se a essência houvesse mudado e a essência não muda, lembras? Tua essência sempre foi liberdade, sol, improviso e riso. Não encontro tua essência. Acreditas que o problema está nos outros, mas os outros são tantos e com os mesmos problemas que cabe a pergunta: O problema está só nos outros? Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, numa constante faxina material como se arrumar o exterior organizasse o interior. Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, como se não existisse uma imensa e larga escala de cores entre o preto o branco, entre a convergência total e a ausência de todas as cores. Não reconheço teu amor assim distante de ti, longe dos teus, aguardo. Dias melhores virão.

Juventude

Ele cruzou o portão principal da universidade em cima de uma bicicleta comum a caminho de casa. Vestia longas bermudas cáqui e camiseta marinho, mochila colada nas costas e cabelos louros curtos balançavam enquanto pedalava contra o vento. Não devia ter mais do que dezoito anos e acompanhei seu trajeto jovem, sentada ao volante de meu carro. Passou embaixo do viaduto, subiu na calçada, onde não há ciclovia e esperou no sinal fechado, como todo mundo. Era a personificação do futuro. Bonita figura do nascer de um homem. Belo exemplar físico do que gerações de cruzamentos variados criaram para o século XXI. Parado no sinal, passou as mãos pelos cabelos e ergueu o torso da incômoda posição das pedaladas. Parado no sinal, esperando como todos, fez planos para o show de logo mais, para o encontro com os amigos, de qual caminho tomar. Avançou antes dos carros, na liberdade de seu meio de transporte, com a inquietação dos vinte anos. O mundo pertence aos vinte anos, nada de mal acontece, a estrada ainda é longa e avançar o sinal faz parte do cotidiano carioca de todas as idades. Seguiu na calçada já com ciclovia e continuou sem esforço, sem pressa, pedalando ao sol dos últimos dias de verão. Imaginei o que faz quando chove. Pega um ônibus? Porque, mesmo que tenha carro, não tinha o perfil de quem se tranca dentro de quatro portas com um motor. Suas pedaladas são sua liberdade, seu caminho, seu desvio. Não… mesmo quando chove, usa a bicicleta. Chega molhado e ri, espera embaixo da marquise, mas não abdica de seu livre pedalar. Acompanhei-o curiosa por mais algum tempo, até que ele virou à direita e eu segui para a Lagoa.

Um dia casei

Um dia casei. De verdade, assinei papéis, conversei com o padre, jurei amor eterno. Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo, Praça XV do Rio de Janeiro, o gráfico que imprimiu os convites, orgulhoso, quis escrever o endereço todo só para usar os algarismos romanos da praça. Casei de branco, vestido lindo e véu moderno, esperei no carro dando voltas no quarteirão para chegar na hora marcada para os sinos badalarem. Sempre adorei sinos de igreja. Ainda paro para ouvi-los. No sinal, um menino de rua se aproximou do carro para pedir uma moeda e me viu, naqueles tempos os carros não usavam o filme escurecedor de vidros que hoje em dia carregam. Ele me viu e o sorriso que deu ao murmurar maravilhado: – uma noiva!… carrego comigo até hoje (terá sobrevivido à vida nas ruas?). Quando o carro arrancou, deu um tchau e correu de volta para sua calçada. Noite estrelada, sem riscos de chuva ou trovoadas, meio de junho de um ano perdido lá atrás. As portas imensas da igreja fechadas, convidados lá dentro, alguns do lado de fora ajudavam a arrumar o vestido, quarenta metros de tule embaixo da saia rodada, lindo vestido, quando o estilista desenhou para mim, veio com meu nome escrito. Era simples e chique, sem rendas ou bordados e com uns cem mini botões do decote à barra. Um laço imenso, atrás, dava um toque bem da época. O estilista e o irmão já morreram faz tempo, os dois de aids, em épocas próximas. Uma tristeza, eles eram ótimos. Minha prima veio do sul com uma roupa de parar o trânsito e uma história que até hoje arranca gargalhadas de quem ouve. As músicas todas trocadas, nada que havia sido combinado, acabei entrando com a que falei que não queria de jeito nenhum, porque me lembrava programa de auditório da minha infância. Nervosa do jeito que eu estava, ainda assim ouvi a música tocada-trocada. Meu pai me conduziu pela nave, parecia um deputado em eleição, orgulhoso, cumprimentando o povo, em direção a um noivo sorridente. Nada do que se faz hoje em dia eu quis, achava cafonérrimo: não quis cortejo de padrinhos, não quis desfile de convidados e se pudesse, acho que teria entrado pela sacristia. Não quis pétalas caindo na cabeça, não quis fotos no altar e as músicas que quis não tive. Houve uma época em que não se podia usar música popular em casamentos na igreja, e as opções eram poucas para meu gosto de então. O padre, amigo da família, fez uma missa emocionada que só fui assistir no vídeo, claro. E, tempos depois, meu irmão distraído gravou gols por cima na fita, cortando toda a entrada e minhas lágrimas de nervoso. No altar, uma madrinha de preto. Eu havia pedido: preto, branco, vermelho, roxo, não! Lá estava ela, vestida de urubu. Outra madrinha deu o cano na hora, um padrinho ficou sozinho no altar. Dos quinze, só restam cinco em minha vida. Os queridos morreram, os outros desapareceram na bruma da estrada. Na saída, acho que a tropa do altar veio atrás de nós dois, mas aí já não importava mais. Os cumprimentos demoraram anos, e eu lembrava de minha outra prima que dizia que colocaria um boneco agradecendo quando chegasse sua vez. Lembro vagamente da festa em seguida, sem música porque também achava cafona casamento com música. E naquele tempo era música, não era o funk de hoje em dia… O matrimônio não durou muito, mas a cerimônia, proporcionada por meus pais, perdura até hoje. É uma lembrança linda, que carregarei comigo.

Como falar de amor?

Como falar de amor se ele adormeceu, dopado por uma dose cavalar de clonazepam? Como falar de amor se ele viajou, tirou férias de mim, retirou-se de cena e me disse, baixinho, que não sabe se volta? Como falar de amor com contas a pagar, com o buraco do peito que desceu para o bolso? Como falar de amor com o menino mortinho de tanto cheirar cola, estirado na calçada, com transeuntes virando a cara? Como falar de amor com o velhinho desconhecido, deitado na maca na esquina da minha rua, ambulância do Samu com sirenes ligadas? Como falar se o erro foi maior que o acerto, se o pijama era três números menor, se a roupa branca não serve mais? Como falar se a ficha caiu, a chuva caiu, a conexão caiu, e eu, caída no chão, emprego imenso esforço para me levantar? Como falar se o olho enche de água só de pensar, se o queixo treme,  os óculos escuros do disfarce largados em outra bolsa? Como falar se eu esqueci tudo e não sei onde estou? Como se eu fui largando pedaços de mim pelos caminhos, não usei miolo de pão, não marquei trilha para voltar? Como falar de amor se o grito é de dor? Como falar se a Fé me escapa entre os dedos, se ando olhando para baixo, se os ombros estão curvados com tanto peso? Como falar de amor se o que sinto é medo, se o que enxergo é negro, se o que ouço é nada? Como falar de um mundo coletivo, colorido, se não consigo rastejar para fora do meu particular em preto e branco? Como falar de algo que se dá, se eu não sei receber? Como falar de grandes e complexas construções se meu lego veio incompleto, se as peças não encaixam? Como falar de tintas e cores e pincéis se eu não tenho onde pintar, se eu não consigo pintar? Como falar de amor se eu não sei onde o deixei?