A Serra e a Cidade

Chove na serra e o meu coração sangra. Numa inversão histórica de Jacinto, deixando Paris, em direção a Tormes, começo a viagem de retorno, saio da serra e volto à cidade grande. As caixas se misturam a malas e sacolas, livros por empacotar, roupas para dar. Olho demoradamente para um casaco grosso, comprido, comprado para graus de menos. Voltarei a usá-lo?Em minha Tormes, o sol bate no cedro, plantado no centro do gramado, os pinheiros balançam graciosamente à brisa, jacus e toda a sorte de passarinhos vêm comer jabuticabas, gambás perambulam pelo terreno à noite, o gato gordo do vizinho desafia a ira dos cães, mas foge rápido, o gás é entregue em confiança, tudo parece ser, mas não é mais.

Do lado de fora da casa, a chuva fina do verão com temperatura amena bate suavemente em meu rosto, saio para uma volta e os cachorros vêm atrás de mim, sem que eu precise chamá-los. Um dia achei que seria feliz aqui para o resto de minha vida. Mas, para o resto ainda falta muito – acho eu, e a vida que segue em frente não será aqui.

Vejo as montanhas de minha Tormes por trás das brumas da chuva e sei que esse ciclo terminou. A casa está quase vazia, o caminhão na porta, o carro cheio e sei que minha Tormes, nunca deixará de ser minha, apesar de já não ser.

A mudança que era para ser suave, foi brusca; o projeto que era para ser amigo, foi bruto; a mão que era para ajudar, atrapalhou; o domingo que era para ser de renascimento, foi de morte e tudo o que veio depois, não existiu.

A serra dormirá eternamente em meus sonhos, nas lembranças, na esperança do sol da cidade grande que, agora, iluminará meus dias.

Rubem Fonseca, Pierrô da Caverna

“Quanto a mim, o que me mantém vivo é o risco iminente da paixão e seus coadjuvantes, amor, ódio, gozo, misericórdia.”

Três Máximas do cinema

“A good storyteller is a person who has a good memory and hopes other people haven’t.”
Irwin S. Cobb

“If you want to be God or a king, therefore, let your head guide you. But should you wish to write for the screen, live by your heart”
Richard Walter

“Polite language makes for polite pictures. And polite pictures violate movie’s one inviolate rule: They’re boring.”
Samuel Goldwyn

Biografia

Tenho uma amiga que adora ler biografias. Ela é uma pessoa cultíssima, viajada, interessante, mas larga qualquer coisa por uma biografia. Qualquer uma, de Marianne Faithfull a Sartre, de Jane Fonda a Nelson Rodrigues, se contou a vida e os sentimentos de alguém, ela já leu ou lerá.Um capítulo à parte tem que ser dedicado a GOD, vulgarmente conhecido como Eric Clapton. Em francês, inglês, português, as autorizadas, não autorizadas e, agora, a recém lançada autobiografia do deus da guitarra, todas já passaram por suas mãos e foram lidas com o interesse de um amor descoberto.

Certa vez, quando ela morava em Paris, ganhou de presente um livro com a biografia de uma modelo brasileira, que se tornava famosa. Leu. O pior é que, alguns dias depois, fui visitá-la e ela disse que eu tinha que ler também. Neguei. Neguei novamente e ainda outra vez. Não perderia meu precioso tempo de passeio em Paris lendo uma bobagem daquelas. Ela venceu, óbvio. Carregou-me para o Jardim de Luxemburgo, onde eu deveria esperá-la por duas horas, aproximadamente, enquanto ela assistia a uma aula na Sorbonne.

Fiquei sentada em uma daquelas cadeirinhas verdes, com o livro dentro de uma revista, morrendo de vergonha, torcendo para não passar nenhum brasileiro perto, que me visse lendo aquilo. Não consegui avançar muito na leitura daquela tarde, meados de primavera em Paris. Olhar ao redor, anotar sensações, era muito mais interessante do que ler aquele relato autobiográfico. Mas não consegui escapar de vez. À noite, enquanto um debate político corria solto na televisão, não me restou muito mais a fazer do que terminar de ler “o livro”.

A paixão dela por biografias alheias sempre me intrigou. Achava estranho que ela ficasse lendo sobre a vida de alguém, tendo ela mesma uma vida movimentada e sendo potencial material para uma biografia.

Outro dia, quando pensava sobre isso, dei-me conta. Ela é de todas as amigas, disparado, a que tem melhor visão da vida. Consegue interpretação sutil para fatos ocorridos com todo mundo, aconselha com sabedoria e, não raro, repete as conclusões dos terapeutas acerca dos mais chegados.

Fala e fala muito, mas ouve melhor ainda. Ela diz que sou desmemoriada, mas é porque não guardo tudo o que ouço. Tem uma capacidade sobre-humana de guardar na memória fatos, diálogos, pessoas, nomes, tudo o aconteceu há trinta anos. Algumas vezes, acho que ela me enrola, por minha lembrança falha, mas, mesmo assim, prefiro acreditar nela.

Acho que essa advogada sairia uma excelente terapeuta. Quem sabe?

Não me esqueça

… Não me esqueça. – caminhou em direção à porta e foi embora, como ele poderia esquecê-la? Estava marcada em seu corpo, como uma tatuagem eterna, seu cheiro entranhado em seus cabelos, a memória da pele na comunhão dos corpos, como esquecer as últimas horas, os últimos meses, seus encontros e também os desencontros, acontecimentos inesperados que haviam modificado as circunstâncias, não o sentimento. Vamos fazer uma noite de desejos, você deseja e eu faço acontecer, havia começado como uma brincadeira, um chope inicial, um passeio descompromissado no shopping, a multidão consumista em seu templo de adoração. Na loja de perfumes, escolheram o aroma só deles, quando usado, indicaria a vontade, a disponibilidade, o encontro das almas e consumaria o desejo, vamos jogar boliche, ela venceria fácil o jogo, não porque fosse uma grande jogadora, mas porque ele a deixaria ganhar, somente para ver sua risada, seus gestos de vitória, sua maneira contagiante de viver a vida, existem pessoas que veem a vida, outros encaram a vida, ela vivia a vida, com intensidade, com desejo, com grandeza, cada momento era único, insubstituível. No boliche, ela venceu as seis partidas, compraram presentes, comeram no japa para comemorar, vamos para a sua casa, sussurrava ele ao seu ouvido e ela sacudia a cabeça em negação, não posso, ele insistia, passava os braços ao redor de sua cintura, descia as mãos por suas pernas, ela cedia, ele a beijava sem pudor do sentimento, ela retribuía, foram para um motel, transformaram a noite de desejos em noite consumada, mãos e corpos entrelaçados, exaustos e suados, o cheiro do sexo, cheiro só deles. Amanhecia, ela se levantou, vestiu suas roupas, acariciou seus cabelos, olhou-o demoradamente, chamou-o de meu menino, pegou as chaves do quarto e disse para ele, guarde-as de lembrança desta noite, não me esqueça…

Futebol

Não sou muito chegada a uma partida de futebol. Entretanto, em anos mais jovens, perdi a conta de quantas vezes fui ao Maracanã, assistir partidas do Flamengo, do América e do Brasil. Mas isso era antes do xixi na arquibancada e das reformas dos últimos tempos.

Não sou tão velha assim, mas lembro de ir ao Maraca com meus pais e irmão seis anos mais novo, com amigos na adolescência, com outros amigos dos vinte anos. E chegou para mim. De repente, um dia, já não aguentava mais ver, nem ouvir futebol. Cansei.

Com avô jogador do América nos anos 30 e 40 do século passado, com pai, padrinho e irmão fanáticos por qualquer jogo de futebol, (meu irmão, quando adolescente, adormecia com o rádio ligado em algum jogo que estivesse sendo narrado, fosse da quinta divisão – existe? no nordeste brasileiro. Quem pode adormecer ouvindo narração de futebol pelo rádio??) eu nasci e cresci em uma família que transpirava o amor pelo esporte.

Depois dos meus anos de Maracanã, e de tanta paixão familiar, resolvi ser a ovelha negra, só para contrariar, e não assisto a nenhum jogo, não leio resultados, por mim, a TV a cabo viria sem os canais de futebol (chamá-los de canais de esporte é um exagero, concordam? Só passa futebol, só se fala em futebol…). Quando quero implicar com meu pai e irmão, digo que, em minha casa, a televisão apaga quando começa a passar jogo de futebol, seja em que canal for. Eles riem e ligam o jogo.