Marialva gostava de flores do campo, Osório lhe entregava tulipas de plástico. Ela preferia viajar de carro, com rumo mas sem roteiro, ele planejava os minutos das férias. Marialva era cheia de energia e queria o sexo sem hora marcada. O metódico Osório só permitia o prazer agendado. Marialva se sentia prisinoneira das datas obrigatórias que Osório lembrava com presentes comprados pelo preço. Marialva queria sair com as amigas, falar bobagens do dia, mas Osório não dava folga, não ia nem ao futebol com os amigos. A vida dos dois era simbiótica por imposição do tempo e das vontades do marido. Na última quinta-feira, ele se depediu da mulher com o mesmo beijo na testa e a promessa do chameguinho obrigatório à noite. Marialva não hesitou: colocou as roupas na mala, documentos na bolsa, escreveu um bilhete simples e saiu pela porta para abrir a vida.
Florbela
Este ano ganhei de meu primo-Rico o passaporte do festival de cinema do Rio, foram 427 sinopses lidas, cinquenta filmes escolhidos e 28 assistidos. Conseguimos fazer uma maratona digna de anotação e de nota. Ele conseguiu ver mais filmes, alguns que eu gostaria de ter assistido mas não consegui. Dos 28 que assistimos juntos não gostamos de dois, o que mostra que nossas opções foram bem acertadas na maior parte.
Tentei fazer uma lista com os preferidos, mas foram tão diversos, já que nossa escolha se baseou em critérios como dificuldade de entrar em circuito e tema, que resolvi escrever sobre eles à medida que apareça a vontade ou o assunto. Hoje pensei muito em Florbela Espanca e o filme que retrata alguns anos de sua vida me comoveu.
“Os amores de Florbela Espanca” é uma produção portuguesa, dirigido por Vicente Alves do Ó (adoro os nomes portugueses) e mostra a vida da poeta (ela se dizia poeta e não poetisa) a partir da primeira separação e os anos vividos com o segundo marido.
Sempre fui fascinada por sua poesia, à qual fui apresentada muito cedo, quando ainda não conhecia a sua vida angustiada e breve. Ganhei sua fotobiografia, o que só aumentou minha veneração pelo romântico e torturado espírito que morreu no mesmo dia que nasceu, com um intervalo de 36 anos.
O soneto número X da série “he hum não querer mais que bem querer” (Camões), de 1930, hoje embalará meu sono. Que embale o seu também.
“Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;
Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!
E abrir os braços e viver a vida,
‑ Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!”
E, acabada a tarefa…em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!
Osório
Osório chorou: “não sei em que errei”. Jogou-se em cima da mesa do bar e continuou a chorar, todos olhando assustados aquele homem grande se esvaindo em lágrimas. Ele era um perfeito marido, há vinte anos não olhava para o lado, só enxergava Marialva, que agora arrumara as malas e saíra de casa, não queria nem conversa. Osório, inconsolável, desfiava o novelo de seu amor que o impedia de entender como a mulher o abandonara, ele-o-marido-perfeito.
O homem contava que, em vinte anos, nunca esquecera nenhuma data: a do primeiro beijo, a de quando começaram a namorar, a de quando marcaram a data do casamento, e a da cerimônia. Para cada data, um presente especial, uma lembrança, um agrado. Além das datas, Osório fazia questão de demonstrar o seu amor com bilhetinhos escondidos pela casa, levava flores, Marialva era a sua deusa a quem ele fazia tudo para agradar. Ela era a sua alma gêmea, a tampa, a metade, todos os lugares-comuns dos ditos populares.
Os amigos o chamavam para um futebol, para assistir ao jogo no bar, para comemorações e ele sempre respondia que sem a mulher não tinha graça. E não ia. Chegava em casa cedo, via a novela com Marialva, ajudava a lavar a louça do jantar, fazia chamegos na mulher sempre aos sábados, às segundas e quintas. Comparecia com alegria e com prazer. Para Osório, a vida era perfeita.
Na última quinta-feira, entrou em casa animado, carregando um ramo de tulipas para a mulher. Encontrou a casa vazia, os armários vazios, a vida vazia. Marialva partira. Um bilhete em cima do banco dizia: “cansei”.
Praia do Caju – Ferreira Gullar
Escuta:
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.
Nesta tarde de férias, disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
o lume
que na carne das horas se perdeu.
Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes conversando na varanda
no riso de Marília no vermelho
guarda-sol esquecido na calçada.
O que passou passou e, muito embora,
volta às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo
sol
que o Universo não mudou nestes vinte anos.
Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
em soluços quase te perguntas
onde está o menino
igual àquele que cruza a rua agora,
franzino assim, moreno assim.
Se tudo continua, a porta
a calçada a platibanda,
onde está o menino que também
aqui esteve? aqui nesta calçada
se sentou?
E chegas à amurada. O sol é quente
como era, a esta hora. Lá embaixo
a lama fede igual, a poça de água negra
a mesma água o mesmo
urubu pousado ao lado a mesma
lata velha que enferruja.
Entre dois braços d’água
esplende a croa do Anil. E na intensa
claridade, como sombra,
surge o menino
correndo sobre a areia. É ele, sim,
gritas teu nome: “Zeca,
Zeca!”
Mas a distância é vasta
tão vasta que nenhuma voz alcança.
O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume
do tempo que apagou.
Era uma vez
Era uma vez a bruxa má que vivia no reino de Soberbian, bem perto do reino de Unquinhoinca. A bruxa má tirava o sossego dos aldeões por meio de suas mandingas xexelentas e maldades sem graça. Os aldeões de Soberbian não sabiam como se comportar perto da bruxa má porque ela, além de ser má porque gostava de ser má, não costumava agir da mesma maneira para duas situações semelhantes. Era como se a bruxa má vivesse em constante TPM, apesar de ser homem.
A bruxa má ganhava a vida entregando as maçãs envenenadas que vendia para aspirantes de bruxas e bruxas velhas. Ela mesma era uma bruxa velha musculosa, mas gostava de dizer que era fraquinha, fraquinha, para enganar os bobos do reino. A bruxa má gostava de deixar sua vassoura atravessada no caminho só para atrapalhar e atrasar a vida dos aldeões. O que a bruxa má não sabia é que os aldeões já não ligavam para os seus desvarios e riam pelas suas costas, ao apontar suas bruzundangas.
A bruxa má saltava de suas vassouras possantes com suas perninhas pequeninas, meio tortas e cabeludas, estufava o peito de forma presunçosa e, crente que era o ser mais lindo, inteligente e culto da terra, redigia textos para os habitantes de Soberbian repletos de havias sem agá e supérfluos começados por cê cedilha.
A bruxa má mantinha mulher e filha em cativeiro, mas não sabia que todos sabiam que elas fugiam quando ela levantava voo para entregar suas maçãs podres. Entretanto, a maçã não cai muito longe da árvore, a filha já tinha se tornada aprendiz de bruxa má enquanto a mulher tentava equilibrar o relacionamento da casa da bruxa com os habitantes de Soberbian, que acreditavam com convicção que ela apanhava de seu marido, a bruxa má. No entanto, nada podiam fazer.
A bruxa má era uma piada sem graça.
Um domingo acolhedor
Sabe aquele domingo que não é verão mas já está quente, que você olha para o armário sem saber o que vestir, e fica na dúvida se leva, de novo no braço, o casaco para passear?
Sabe aquele domingo em que o mundo invade as praias da cidade, em que línguas variadas são ouvidas no mercado, e você fica na dúvida de que sorvete comprar?
Sabe aquele domingo em que o maior dilema a ser resolvido é se sobe no táxi que conduzirá à melhor companhia ou se deita na rede que você não tem pendurada na varanda que não existe?
Sabe aquele domingo em que você é recebida de braços abertos por amigas queridas, em que joga conversa para dentro, bebe cerveja e se delicia com moqueca de peixe feita na hora por mãos de fada?
Sabe aquele domingo em que a conversa flui, mas se ficar em silêncio ninguém reclama, em que você se sente tão acolhida que poderia tirar uma soneca no sofá?
Pois é, todos os dias poderiam ser domingos assim.