Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Tag: Família
50 anos
Há quarenta e um anos somos amigas. É um bocado de tempo. Costumo dizer que além de amiga-irmã ela é minha biógrafa e outro dia me sugeriram testemunha, porque presenciou tanto de mim que pode ser assim denominada. Pois é, minha irmã-amiga-testemunha faz 50 anos.
Não há festa, presente ou comemoração que possa fazer jus ao meu sentimento por ela. Quando pequenas, influenciadas pelo som de nossas mães, assistimos a um show de Frank Sinatra que ninguém assistiu: nós duas, sentadas na sala em casa, disco na vitrola antiga, poucas luzes, imaginamos o show e vimos cada faixa cantada pela voz do século passado. Aplaudimos e nos emocionamos com nosso Sinatra imaginário. Anos depois, minha amiga foi com sua mãe ao Maracanã assistir ao show, enquanto eu estava de castigo pelas notas baixas na escola. Fazer o quê?
Nossa amizade começou no colégio, com empréstimo de canetas pilots e histórias em quadrinhos que ela desenhava – e que eu ainda guardo como obras de arte – retratando nossas paixonites de crianças. Uma das lembranças mais ternas que tenho é ela caminhando, magrinha, com uma mochila retangular vermelha enorme presa às costas. Não sei como não caía para trás, mas a fotografia era bela. Juntamente com outras amigas, na hora do recreio costumávamos reproduzir as novelas da TV e minha irmã dizendo que ia “tomar um birinaite no meu cafofo” era arrasador.
Passamos juntas parte da adolescência em Friburgo, dividindo sonhos, músicas, quartos, menos namorados. Nesse quesito nossos gostos sempre foram muito diferentes e muito debatidos. Esses meninos ocuparam muito tempo de nossas conversas pela vida afora.
Já adultas, nossas noites regadas a vinho e música causavam certo ciúme em maridos e namorados, mas nada que abalasse qualquer relação. Durante alguns anos, vivemos separadas por milhares de quilômetros, por um oceano, por uma centena de quilômetros e hoje em dia por alguns bairros. Sinto-me muito privilegiada de poder encontrar minha amiga sempre que a vida corrida permite.
Choramos juntas, eu por sua mãe, ela pelo meu pai. Choramos separadas por amores perdidos, mas rimos mais que tudo na vida, um riso sem fim, de pura alegria, de deboche, dos outros e de nós mesmas. Após quarenta e um anos juntas, a coluna dos risos é infinitamente maior que a do choro.
Minha querida faz 50 anos e eu me sinto privilegiada de ter tido tanto dela em uma só vida. Sua generosidade, sua capacidade de amar, seu desprendimento, seu perdão, sua vontade de dizer não e sua impossibilidade de fazê-lo. Seus passos largos, sempre apressados, sua juba leonina balançada ao sair de casa, suas ideias, sua capacidade de resolver quase tudo para quase todos, sua conversa, sua amizade e seu amor. Eu a amo desde nossos nove anos e será sempre assim até o fim.
Parabéns, minha irmã. Você me faz ser um pouquinho melhor por existir.
Primeiras impressões de São Paulo
Veigas desde 1771
Somos a sexta geração de Veigas no Brasil, desde que Francisco Luiz Saturnino da Veiga aportou por esses lados, em 1771. Já há outras duas gerações após a minha, aumentando essa árvore que, para mim, na realidade, começou no vovô Gô, apelido dado por uma neta que não pronunciava o Heitor, nome tão bonito. Vovô, pai de papai, tio Sergio, tio Heitorzinho, e Lolô, a minha tia-madrinha-quase-mãe que, a essas horas está se divertindo na praia. Dos irmãos, agora, só ela para contar as histórias familiares.
Somos sete primos-irmãos, meu irmão macho-solitário no meio de seis mulheres. Deu no que deu. O que isso quer dizer? Perguntem à mulher dele… Hoje é aniversário da mais velha, Sandra, minha prima padeira-diretora-espírita-mãe-amiga. Na realidade, desses sete, eu sou a mais velha, mas implico com todo mundo, afinal primo é para isso. Depois, em uma escadinha anual, vem Denise, Renata, Patrícia, Leandro e a caçula, Valéria.
Sandra, Denise, Renata, Leandro e eu crescemos juntos, passamos aniversários, férias, festas de fim de ano e tudo o que se possa imaginar juntos. Leandro era o moleque melequento e chato (mas lindinho, sejamos justas) e nós, as quatro mocinhas elegantes. A vida ao lado delas sempre foi cheia de riso, brincadeira e saudade, já que nunca moramos na mesma cidade. A vida ao lado delas era feita de oportunidades, as mesmas que só tivemos mais tarde com Patrícia e Valéria, por circunstâncias da vida. A vida ao lado de nossas primas sempre foi vida. E continua sendo. Das melhores. É feita de choro e riso na mesma frase. Nunca vi povo para chorar tanto, ao mesmo tempo que ri e fala bobagem de arrepiar os mais comedidos.
A vida com nossas primas foi construída em viagens de carro com caronas vomitadoras, em despedidas adiadas por semana, em bailinhos nos clubes, em mergulhos intermináveis, em comidas e bebidas indescritíveis. Hoje, porque Sandra faz aniversário, lembrei das bobagens que Denise fala e das graças que Renata escreve sem cedilhas ou acentos. Do encontro rápido com Patrícia na Lapa e da espera por Valéria. Somos todos primos distantes fisicamente. Duas moram no Sul, duas bem bem ao Norte, uma do outro lado do oceano, meu irmão e eu aqui, na cidade, que para nós, será sempre a maravilhosa. Primos viajantes.
E quando não viajamos fisicamente, passeamos pelas memórias e pelos planos futuros, contamos os dias para os próximos encontros, gastamos todos os minutos telefônicos, mandamos pacotes, cartas, usamos correio eletrônico, todas as formas possíveis e disponíveis de comunicação.
Primos queridos. Contam nossa vida porque vivem-na conosco. São a própria vida. Amo!
Curtinha 2
Sobrinha de oito anos, em conversa distraída, para a tia:
– Alguns amigos disseram que querem me comer.
Tia, alarmada, disfarçando, pergunta:
– O que foi, meu amor?
Sobrinha, sorrindo, repete:
– É… Alguns amigos disseram que querem me comer.
Tia, já suando, pergunta:
– E por que seus amiguinhos disseram isso para você?
Sobrinha abre um sorriso lindo e fala:
– É porque eles disseram que eu devo ter chocolate em minhas veias.
Meu pai querido
Baseado em música de Chico, com sua melodia e benção, se possível.
Meu pai querido me perdoe, por favor
O seu sorriso me faz falta
Mas como agora estou olhando o Redentor
Minha saudade anda alta
Aqui no Rio tão jogando futebol
É a novela, o jantar e o cachecol
Uns dias choro, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta
Muita amizade pra elevar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Difícil é a lamentação
Meu pai querido eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
No mês de julho a família reuniu
Muito barulho como sempre você viu
Uns dias eu choro, noutros dias tem psiu
Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta
É a oferta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, e é danação
Você não estar aqui para dar a sua opinião
Ninguém segura esse rojão
Meu pai querido eu quis até telefonar
Mas a high tech não lhe alcança
Eu ando aflita pra ajudar e acertar
A sua bem-aventurança
Já em agosto faz seis meses que partiu
Sem muito esforço a sua ausência transgrediu
Um dia é choro, noutro dia distraiu
Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta
Muito alerta pra engolir a transição
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém aguenta a cessação
Meu pai querido eu bem queria lhe escrever
Encontro modo desse jeito
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias nossas sem defeito
Agora mesmo cada um tá num local
Em Norte e Sul, a distância é abissal
Um dia é riso e no outro aguaçal
Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta
E a Mamãe manda um beijo para você,
Um beijo de Leandro, Búbi, Pedro e Gabi
Aqui ao lado a lambida vai da Shee,
Ao nosso pessoal
Até.