300 dias sem ele – final

Vi ontem, dentro da Travessa, a reedição do livro que você queria. No meio de tanta capa diferente de livro novo, meu olhar caiu justo nele. Abri e li a explicação de porquê ele ficou tanto tempo fora de circulação, já que a autora está viva e sua coleção foi renovada. Era mesmo o que eu imaginava. Chorei com o livro na mão. Difícil mês, pior mês, mesmo entre festas, danças, amigos e fotos em que você não aparece.

A festa da Gabi de encerramento de ano no colégio foi alegre, eu acho que você viu. Saímos de lá, mamãe pediu para comprarmos seus bolinhos de camarão com catupiry no Bracarense, fui com Pedro no Pavelka, quase seu circuito completo. Quando fui deixá-los em casa, aquela chuva de alagar e eu contei para seus netos sobre o dia em que Leandro e eu fomos resgatá-lo na praça da Bandeira, lembra? Você e sua pastinha na mão, o carro afogado no canteiro. Eles riram muito da história.

Difícil mesmo foi a formatura do Pedro. Turma 93, nosso querido está agora no ensino médio, nomenclatura nova para o antigo científico. A missa foi bonita. A entrega dos certificados foi emocionante. Como é que você perdeu isso? Na volta para casa, mamãe quis parar no Real chopp, para os famosos bolinhos, e eu só parei de chorar no dia seguinte.

Ontem, entre amigos frequentes, Búbi comentou que você comprava os ingredientes no sábado e telefonava para eles: “Como é? A que horas chegam? Já comprei tudo.” Bal, Mi e Vivi, quase em uníssono, disseram que queriam ter conhecido você.  Meu coração silenciou.

E no fim, todos dizem que o tempo ajuda, que a vida deve continuar (e continua, mesmo que não desejemos), há coisas a fazer, ainda há sorrisos a dar, há causos a relatar, mas não adianta apressar: de nossa dor sabemos nós.

Babaya, feliz ano novo. Haveremos de nos encontrar um dia. Fique tranquilo que não estou com pressa. Estou só com muita saudade.

300 dias sem ele – Parte 3

“Perene flui a interminável hora / Que nos confessa nulos. No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos. Colhe / O dia, porque és ele.” – Fernando Pessoa, meu ídolo depois de você. Minha bíblia, meu muro de lamentações, meu céu estrelado.

Junho foi cansativo, aborrecido, estressante. Julho trouxe a família do Norte e do Sul, para as férias que você combinou com tanta vontade. Mas você não estava lá. No primeiro fim de semana, aniversário da Búbi, fomos os quatro, com Gabi, Pedro ainda estava em aulas. Deixamos Shee hospedada com Zizou. Mamãe estava triste e deslocada, percebia-se que ela queria estar em qualquer lugar, menos lá. No entanto, foram dias ensolarados e noites anestésicas, em que nos unimos mais e tudo foi superlativo. Você teria adorado o sucesso de sua neta e o entrosamento de seu neto, em férias de muita diversão, com primos que se encontram a cada três anos. Tantas foram as histórias, que não cabem aqui. Estão em nossa memória e nas fotografias. A família continua adorando tirar fotografias.

No segundo fim de semana mamãe e Shee ficaram no Rio. Pedro foi. O dia 20 foi choroso. Seriam 49 anos de casados que você e mamãe não completaram juntos. Todos dizem que ela tem estado bem, e eu também penso assim na maioria das vezes, e em outras vezes tenho a certeza que é você ajudando. Só pode ser. Após 54 anos juntos, como poderia aguentar o rombo que sua partida repentina abriu? No fim das férias, fizemos um jantar aqui para quase toda a família, capitaneado por mamãe, que foi maravilhoso. Renatinha passeou pela casa, querendo sentir todos os seus cantos. Mas você não estava. Sua fotografia, sua poltrona, seu lado da cama, sua caricatura na parede, tudo gritava você. Foi um jantar lindo.

Quando setembro começou, já imaginamos o último dia. O seu dia. O dia mais animado e comemorado do ano. Como seria passar dia 30 sem você? Resolvemos que estaríamos juntos, celebrando a nossa família, como você iria querer, como tantas vezes fez. A grande diferença, além de sua ausência, foi o telefone que não tocou. Todos aqueles milhares de telefonemas que, muitas vezes, interromperam nossos jantares e me deixaram irritada, já que você fazia questão de atender a todo mundo, não interromperam nada dessa vez. Você não estava aqui.

Em setembro, mês de bienal do livro, quantas vezes fomos juntos, lembra? Fui duas vezes, com os amigos da a-pós-calipse, Bal queria receitas e mais receitas, Mi conhece todo mundo, mas todo mundo mesmo, Vivi tem o dedinho mágico para encontrar soluções. Pedro foi para o Rock in Rio e Gabi assistiu pela TV conosco em duas ocasiões, propriamente vestida: na primeira noite, nos fantasiamos de heavy metal. Cantamos e dançamos e rimos e brincamos. Luíza me chamou para ir com ela no dia 29, mas não tive coragem. A véspera do seu aniversário foi pior do que a data em si. Acho que todas as vésperas foram piores, porque nos dias significantes estávamos tão preocupados em não desapontá-lo aí, onde você está, que tentamos fazer direito. Sempre rola uma lágrima aqui e ali, mas os sorrisos estão mais frequentes. Na segunda noite de farra de Rock in Rio, o seu aniversário, combinamos de jantar juntos e Pedro, o seu neto tão elegante e carinhoso, perguntou se queríamos que ele deixasse de ir aos shows para vir para cá. Imagina só, sente o que você não está vendo. Búbi, Gabi e eu brincamos de flower power e vimos os shows pela TV. Leandro brindou conosco e com sua foto. Pensamos muito em você.

Em outubro, seu neto completou 15 anos. A última vez que mamãe e eu pegamos a trena, ele media 1,82m. Você adoraria vê-lo cada dia mais bonito e alto. E estudioso, e cordato, e carinhoso, e irônico. A piada dele não é gratuita, é inteligente. O jantar dele foi o início de um tempo menos pesado. Álvaro e Rico, presentes o ano inteiro, não faltaram a esse momento. No mesmo mês, Lygia fez 80 anos em uma festa regada a bom humor e muita disposição. Ela disse que você a ajudou na organização do evento. Sentiu sua presença todo o tempo. No fim, as palavras de cada filho tocaram fundo e foi impossível segurar a emoção.

Novembro foi um mês de sorrisos, encontros com amigos e festas dançantes. Muitas fotos comprovam nossos pequenos momentos felizes. Mamãe e eu rimos por muitos motivos, pequeninas bobagens de uma convivência diária. Ela decidiu que todas as vezes em que for cozinhar carne, separará um pouquinho sem tempero e cozida no micro-ondas para Shee. Resultado: Ganhou uma sombra. Shee ouve mamãe na cozinha e corre para lá.

Então, chegou dezembro. Dezembro sem você.

300 dias sem ele – parte 2

Encontrei, e ainda encontro, pedacinhos de você por toda a casa. É como se tivesse feito de propósito, para que não houvesse chance de esquecê-lo. Bem diria aquela nossa piada interna “mas isto é uma bstéira, senhor engenheiro!” (em sotaque português). Não há dia ou momento que não pensamos em como seria bom se você estivesse aqui. Li um trecho do Eco que você, com certeza, pediria: “Filhinha, copia pra mim?”. Copio: “Eu não sei, certamente hoje as pessoas veem muita televisão, e existem indivíduos de risco que não veem nada além de televisão, assim como existem indivíduos de risco que gostam de injetar substâncias mortais na veia”. Quando li o trecho, olhei para trás porque escutei a sua risada, Umberto Eco colocando no mesmo cesto gente que assiste muita TV e viciados em drogas injetáveis. Você teria rido. Você riu.

Fevereiro e março esgotaram nossas lágrimas e nossas forças. Não injetamos drogas, mas a TV não descansou um instante, falando para as paredes, enquanto tentávamos esvaziar a cabeça repleta de listas de providências que, se foram diminuindo com o tempo, ainda resistem através de pessoas surdas à nossa dor e incompetentes para o trabalho. Esvaziamos seus armários e algumas estantes. Calma, fique tranquilo, os livros que foram dados não serviriam a ninguém aqui e ajudaram uma moça a começar vida nova. Eu sei que dessa parte você gostou. Sempre foi o seu forte, ajudar alguém. Sempre ajudou. O rapaz das frutas no sinal, que chorou em meu ombro, o manobrista, que chorou em seu ombro sem vida, o antigo porteiro, que liga para saber como estamos, todos que tiveram a sorte e o privilégio de conviver com você.

O primeiro aniversário foi logo o de mamãe, dez dias após sua partida. Encontramos a sua anotação do presente, fomos até a loja, contamos a história e as atendentes não seguravam a emoção. Na reunião familiar, mamãe, consumida por sua ausência, reclamou: “Seu pai morre e nós damos festa? O que vão pensar?” Na verdade, naquele momento, não existiam os outros, que pensassem o que quisessem. E não era festa, era atordoamento.

No carnaval tardio deste ano, tranquei-me em casa com uma pilha de livros e filmes. Fechei janelas e ouvidos, não queria saber daquela alegria de rua que ofendia minha dor. Sandra me obrigou a terminar a tese, que eu havia desistido de concluir, e tive de desistir de desistir. Pelo skype, palavra por palavra, ela leu, corrigiu, incentivou, puxou. Dediquei-a a você e, um dia, talvez, possa transformá-la em livro. Marcia empacotou minha casa, contratou o frete, fez minha mudança e, quando acordei, nossa sala tinha virado um imenso depósito de caixas e móveis. Levamos um pouco de tempo para arrumar tudo e hoje, que está tudo arrumado, eu não sei onde está nada. Mas também não importa, eu só queria saber onde está você.

Em abril, no aniversário do Leandro, Búbi fez uma reunião surpresa na casa de amigos, todo mundo sabia, menos o seu menino. Pedro e Gabi pregando peça no pai para levá-lo ao local foi tão engraçado. E ele nem desconfiou. Quando chegou e nos viu, porque mamãe também foi, ficou bem surpreso. Que mesa bonita ela arrumou, quanto carinho e quanto amor. Três semanas depois chegou o meu. Será que não dava para pular do dia 1 para o dia 3? Mamãe achou que não dava e começou a fazer uma lista para o jantar. Tudo o que ela sugeria, eu dizia não, não quero, não gosto. Na verdade, eu não queria nada, mas já que iria acontecer, fizemos um jantar em família. Só família, quem veio sabe. Foi o primeiro em que tiramos fotos. Tiramos, não, ganhamos fotos. Nossa família cresceu, com a chegada de amigos com quem você teria adorado conversar.

Maio é um mês repleto de datas significativas, dia das mães, os aniversários do Sul, Gabi no fim do mês. O mês se mostrou interminável, entre os telefonemas, encontros, noites reunidas, novidades que você não viu, notícias que você não soube, momentos marcados pela sua ausência. Ausência. No Houaiss, a primeira definição de ausência é “afastamento temporário de alguém do domicílio, dos lugares que frequenta etc.” A palavra que não completa nossa sentença é “temporário”. A sua partida não é temporária, a nossa saudade não é temporária, o nosso amor por você não é, nunca foi temporário.

E, no meio de tanta dor, julho chegou, trazendo a família toda para o Rio, após tantos anos, para o encontro que você estava planejando com tanta alegria. Só não ficou para ver.

300 dias sem ele – parte 1

Eternidade. Você está no lugar a que chamamos de eternidade; a sensação que tenho é que faz uma eternidade e, no entanto, foi ontem. Minha memória falha, que me impede de reconhecer pessoas, nomes e de lembrar de situações, é competente quando olho pelo ombro e me vejo, naquela quinta-feira, arrumando as sacolas de fim de semana, com roupas, comida da Shee, note e papéis da monografia, esperando a sua carona, nós três chegando em nossa casa carregados para uns dias em família.  Você sentado na poltrona que agora é minha, sim, é minha, nela colei meu nome, virou piada na família. Em nossa quarta última noite, vimos TV, lanchamos e conversamos alguma bobagem. É bem provável que eu estivesse meio rabugenta ou meio ensimesmada, não importa. Não sabia que nos restava pouco tempo. Nunca sabemos, não é mesmo? Por isso, você sempre foi incapaz de sair de casa brigado com um de nós. Quantas vezes, eu-menina ouvi você repetir que não deveríamos guardar a zanga, porque não sabíamos o que poderia acontecer no minuto seguinte? Pensando bem, você deve ter começado a agir assim após a morte violenta de seu irmão, em um acidente de carro. Irmãos não poderiam partir sem aviso.

No dia seguinte, você foi trabalhar, como de costume, e eu fiquei em casa com mamãe e Shee, um prenúncio da mudança que aconteceria em nossa vida, tentando colocar as ideias da tese no note. Minha agenda marca que cortei o cabelo naquele dia, mas eu não me lembro, lógico, e no início da noite fui para a porta do teatro esperar Pedro para assistirmos ao musical Hair. Ele gostou, apesar do sono menino que o fez cabecear o ar algumas vezes. Voltamos para casa juntos e você queria saber tudo, o que ele tinha achado, as músicas, como era a montagem de 2010, já que você e mamãe assistiram a de 1970, com Armando Bógus e outros. Soubemos depois que, naquela sexta, nossa terceira última noite, quando pegou o carro na garagem do trabalho com o Bruno, disse para ele que ainda queria viver muito para ver a sua neta moça. E ele, ao entregar o carro respondeu que sim, você veria sua neta moça e o filho dele que estava para nascer. Os dois não poderiam estar mais errados. Mas não sabíamos, não é?

No sábado, dia 19, ficamos em casa. Como o irmão tinha assistido à peça, quando Gabi soube que eu tinha o filme fez tudo para assistir. Depois do almoço, na hora da siesta da maioria da família, nós duas vimos o filme, e cantamos as músicas, e dançamos em cima do sofá. Fechamos todas as portas para ouvir o som bem alto e combinamos que quando aparecesse gente pelada no filme ela fecharia os olhos. E ela fechou. Sua neta é realmente o máximo. À noite, nossa penúltima noite, após o lanche, você quis assistir ao Bravura Indômita e eu cheguei a pensar que você não resistiria de sono. Que nada, assistiu com Pedro ao seu lado e os dois adoraram o filme. Eu sei que você sempre gostou do estilo western movie. Fomos dormir tarde e nem conversamos muito, mas não sabíamos que o nosso tempo estava em contagem regressiva, não é?

O domingo nos despertou na maior preguiça, ficamos nós oito (Shee incluída), naquela moleza de dia de verão no Rio, almoçamos juntos, na TV passava um jogo qualquer, porque nas TVs do Leandro há sempre gol, lembra? Ele deve comprar um modelo especial, que já vem com coleção de gols. Como ríamos dessa piada boba que você dizia! Aliás, como sempre rimos com você. Na troca de copos de vinho, no pé estendido para tocar a mão do outro, nos bilhetinhos espalhados, bobagens pequeninas familiares que fazem a vida ter outro gosto. No fim do dia, nossa última noite, você fez tudo para eu dormir em casa, disse que me daria carona na manhã seguinte e só não fiquei porque você iria insistir para entrar com o carro naquela viela e eu fiquei com medo de você bater nos carros estacionados. Fui embora com Leandro. Perdi algumas horas de noite com você, quando poderíamos ter conversado como sempre fizemos, mas não sabíamos, não é?

Você não faz ideia de quantas vezes me arrependi de ter ido. Na última vez em que comentei o assunto com mamãe, ela em sua sabedoria materna disse: “Não era para você estar aqui naquele momento. Simplesmente não era”. E naquela segunda-feira de sol, calor e dia lindo, você acordou, levantou, foi ao banheiro, comentou com mamãe que se sentia resfriado e por nada sairia da cama para trabalhar. Deitou, fechou os olhos e partiu.

 

Meu pai querido

Baseado em música de Chico, com sua melodia e benção, se possível.

Meu pai querido me perdoe, por favor

O seu sorriso me faz falta

Mas como agora estou olhando o Redentor

Minha saudade anda alta

Aqui no Rio tão jogando futebol

É a novela, o jantar e o cachecol

Uns dias choro, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta

Muita amizade pra elevar a situação

Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça

E a gente vai tomando e também sem a cachaça

Difícil é a lamentação

Meu pai querido eu não pretendo provocar

Nem atiçar suas saudades

Mas acontece que não posso me furtar

A lhe contar as novidades

No mês de julho a família reuniu

Muito barulho como sempre você viu

Uns dias eu choro, noutros dias tem psiu

Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta

É a oferta pra cavar o ganha-pão

Que a gente vai cavando só de birra, e é danação

Você não estar aqui para dar a sua opinião

Ninguém segura esse rojão

Meu pai querido eu quis até telefonar

Mas a high tech não lhe alcança

Eu ando aflita pra ajudar e acertar

A sua bem-aventurança

Já em agosto faz seis meses que partiu

Sem muito esforço a sua ausência transgrediu

Um dia é choro, noutro dia distraiu

Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta

Muito alerta pra engolir a transição

E a gente tá engolindo cada sapo no caminho

E a gente vai se amando que, também, sem um carinho

Ninguém aguenta a cessação

Meu pai querido eu bem queria lhe escrever

Encontro modo desse jeito

Se me permitem, vou tentar lhe remeter

Notícias nossas sem defeito

Agora mesmo cada um tá num local

Em Norte e Sul, a distância é abissal

Um dia é riso e no outro aguaçal

Mas o que eu quero é lhe dizer que a saudade aperta

E a Mamãe manda um beijo para você,

Um beijo de Leandro, Búbi, Pedro e Gabi

Aqui ao lado a lambida vai da Shee,

Ao nosso pessoal

Até.

Serviços péssimos

Ontem almocei com uma amiga e passamos boa parte do tempo comentando o péssimo serviço que as empresas prestam ao consumidor no Brasil. Esse tem sido um tema tão presente nos últimos tempos que de duas, uma: ou os serviços têm piorado em nosso país, ou estamos – os consumidores – percebendo que o nosso direito é maior do que aquilo que efetivamente recebemos.

Há uns sete anos atrás, entrei com uma ação no Procon contra um cartão de crédito. Eu queria pagar, mas eles não queriam receber. Por mais incrível que isso possa parecer. É que era mais vantajoso para eles continuarem a cobrar juros sobre juros – e ganhar a longo prazo – do que negociar comigo e receber logo. E eu não queria dever e sujar meus nome e CPF. No dia da conciliação, apareceu um caixa da agência informando que ele seria o representante do banco. Naquela manhã, o jurídico do banco havia enviado um e-mail para o gerente da agência, obrigando o comparecimento de algum funcionário. Portanto, lá foi um meninote de uns 15 anos – juro que era quanto ele aparentava – representar o banco em mais uma briga na Justiça. Meu advogado chegou a perguntar se o rapaz teria algum poder de negociação e ele respondeu que não. E ainda contou-nos que para o banco tanto fazia, a quantidade de cliente-consumidor que seguia em frente para uma ação na justiça era muito pequena, a maioria desistia por causa da burocracia e do tempo precioso que tal atitude tomaria. Era mais barato para o banco “fechar” os olhos e esperar alguém reclamar e reclamar porque até cair na Justiça, o banco sairia ganhando. Sempre. Fiz o acordo rapidamente, afinal eu queria era pagar a conta para encerrar o caso e me arrependi de não ter ido em frente para a próxima etapa que seria o Tribunal.

Casos como esse continuam acontecendo. Minha amiga do almoço contou que comprou uma geladeira frost free de mil e quinhentos reais que deu problema desde o segundo dia. O técnico deve ter se enamorado por ela ou pela geladeira, pois já a visitou nove vezes. Na última vez, proferiu a pérola: a geladeira frost free só pode ser aberta duas vezes ao dia (!) A geladeira segue errática pelo submundo do degelo automático… Nada é resolvido.

Ontem mesmo à noite, fui com minha mãe a uma loja de roupa feminina. Veja: ganhei de presente de aniversário uma blusa da qual não gostei. Meu aniversário foi há 24 dias atrás. Entramos na loja e falei para a vendedora que nos atendeu que eu gostaria de efetuar uma troca. A vendedora perguntou se havia sido um presente. Respondi que sim. Ela olhou bem a blusa, verificou que a etiqueta da roupa estava no lugar e proferiu a pérola: vou ter que ligar para pedir uma autorização especial porque já se passaram dez dias (!) da data da compra. Eu respondi, já aborrecida, que ela fizesse isso e conseguisse a resposta porque, conforme fosse, eu tiraria ali mesmo o vestido novo que eu estava usando, da mesma marca, e iria pelada pelos corredores do shopping dizendo que aquilo era culpa da loja. Quando ela desligou o telefone, disse outra pérola: que “eles” (nem ousei perguntar quem seriam “eles”) estavam abrindo uma exceção (por que exceção? e por que para mim? “eles” me conheciam?) e eu poderia trocar a roupa. Aquela resposta me embrulhou o estômago e comentei com mamãe o assunto do almoço – o cliente não precisaria passar por determinadas situações, se os atendentes fossem bem treinados e orientados.

Comecei a olhar tudo com muita má vontade, eu queria era sair dali correndo, até que veio uma outra moça, imaginei que fosse a gerente, com outro tom de voz, outra postura, e começou a tentar salvar o que estaria perdido com a boboca anterior. Resultado foi uma troca em que a loja vendeu mais 130 reais. Nada mau para uma quarta vazia, não?

No século XIX, em meu primeiro emprego em uma loja Cantão, a lesson 101 era que cliente quando entrava para fazer troca era oportunidade de venda. Caramba! Quase trinta anos depois tem gente que ainda não descobriu isso!

Uma empresa de consertos de eletrodomésticos, desde 29 de março embroma, marca, dá o cano, me faz perder tempo para consertar uma lava-louça que já encharcou a cozinha três vezes após a saída do técnico. Eles marcaram – mais uma vez – para ontem a partir das 13 horas. O técnico chegou hoje às 16, após seis telefonemas meus. Cinco minutos depois dele chegar, a Central o chamou pelo rádio, falando sobre uma cliente – que pela descrição inicial de fogo nas ventas, achei que era eu – que tinha todas as ligações gravadas, tudo anotado e ia partir para a briga. Ele respondeu que às 17 horas estaria na casa dela. Eu, que estava sentada em frente a ele como uma estátua e de onde só levantei quando ele deu boa noite ao sair, olhei o relógio que marcava 16h10. Pensei: mais uma cliente que vai ficar esperando à toa. Era óbvio que ele não conseguiria chegar 50 minutos depois na casa dela, nem que ela fosse minha vizinha de andar. Passados quinze minutos, o rádio dele tocou novamente com a informação que a cliente não esperaria mais. Ele marcou a visita para amanhã às 11 da manhã. Será que vai cumprir?

O conserto que ele fez aqui foi o que ele deveria ter feito semana passada, se eu não tivesse desgrudado dele como fiz hoje. Era um balanceamento na máquina, que tem que ficar em uma determinada inclinação e a ligação de um plug interno. Eram 18h15 quando ele saiu porta afora, depois de mais de duas horas de conserto e teste para ver se tudo funcionava. Sob meu olhar atento, que nem pisquei enquanto ele esperava. Aprendi que não podemos nos afastar quando um “técnico” – tem que ser entre aspas – está tentando achar o defeito em alguma coisa na casa.

Em outro post vou comentar as Centrais de atendimento ou call center.

Será que morro de fome ou enriqueço se me oferecer como professora de atendimento ao cliente?