300 dias sem ele – Parte 3

“Perene flui a interminável hora / Que nos confessa nulos. No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos. Colhe / O dia, porque és ele.” – Fernando Pessoa, meu ídolo depois de você. Minha bíblia, meu muro de lamentações, meu céu estrelado.

Junho foi cansativo, aborrecido, estressante. Julho trouxe a família do Norte e do Sul, para as férias que você combinou com tanta vontade. Mas você não estava lá. No primeiro fim de semana, aniversário da Búbi, fomos os quatro, com Gabi, Pedro ainda estava em aulas. Deixamos Shee hospedada com Zizou. Mamãe estava triste e deslocada, percebia-se que ela queria estar em qualquer lugar, menos lá. No entanto, foram dias ensolarados e noites anestésicas, em que nos unimos mais e tudo foi superlativo. Você teria adorado o sucesso de sua neta e o entrosamento de seu neto, em férias de muita diversão, com primos que se encontram a cada três anos. Tantas foram as histórias, que não cabem aqui. Estão em nossa memória e nas fotografias. A família continua adorando tirar fotografias.

No segundo fim de semana mamãe e Shee ficaram no Rio. Pedro foi. O dia 20 foi choroso. Seriam 49 anos de casados que você e mamãe não completaram juntos. Todos dizem que ela tem estado bem, e eu também penso assim na maioria das vezes, e em outras vezes tenho a certeza que é você ajudando. Só pode ser. Após 54 anos juntos, como poderia aguentar o rombo que sua partida repentina abriu? No fim das férias, fizemos um jantar aqui para quase toda a família, capitaneado por mamãe, que foi maravilhoso. Renatinha passeou pela casa, querendo sentir todos os seus cantos. Mas você não estava. Sua fotografia, sua poltrona, seu lado da cama, sua caricatura na parede, tudo gritava você. Foi um jantar lindo.

Quando setembro começou, já imaginamos o último dia. O seu dia. O dia mais animado e comemorado do ano. Como seria passar dia 30 sem você? Resolvemos que estaríamos juntos, celebrando a nossa família, como você iria querer, como tantas vezes fez. A grande diferença, além de sua ausência, foi o telefone que não tocou. Todos aqueles milhares de telefonemas que, muitas vezes, interromperam nossos jantares e me deixaram irritada, já que você fazia questão de atender a todo mundo, não interromperam nada dessa vez. Você não estava aqui.

Em setembro, mês de bienal do livro, quantas vezes fomos juntos, lembra? Fui duas vezes, com os amigos da a-pós-calipse, Bal queria receitas e mais receitas, Mi conhece todo mundo, mas todo mundo mesmo, Vivi tem o dedinho mágico para encontrar soluções. Pedro foi para o Rock in Rio e Gabi assistiu pela TV conosco em duas ocasiões, propriamente vestida: na primeira noite, nos fantasiamos de heavy metal. Cantamos e dançamos e rimos e brincamos. Luíza me chamou para ir com ela no dia 29, mas não tive coragem. A véspera do seu aniversário foi pior do que a data em si. Acho que todas as vésperas foram piores, porque nos dias significantes estávamos tão preocupados em não desapontá-lo aí, onde você está, que tentamos fazer direito. Sempre rola uma lágrima aqui e ali, mas os sorrisos estão mais frequentes. Na segunda noite de farra de Rock in Rio, o seu aniversário, combinamos de jantar juntos e Pedro, o seu neto tão elegante e carinhoso, perguntou se queríamos que ele deixasse de ir aos shows para vir para cá. Imagina só, sente o que você não está vendo. Búbi, Gabi e eu brincamos de flower power e vimos os shows pela TV. Leandro brindou conosco e com sua foto. Pensamos muito em você.

Em outubro, seu neto completou 15 anos. A última vez que mamãe e eu pegamos a trena, ele media 1,82m. Você adoraria vê-lo cada dia mais bonito e alto. E estudioso, e cordato, e carinhoso, e irônico. A piada dele não é gratuita, é inteligente. O jantar dele foi o início de um tempo menos pesado. Álvaro e Rico, presentes o ano inteiro, não faltaram a esse momento. No mesmo mês, Lygia fez 80 anos em uma festa regada a bom humor e muita disposição. Ela disse que você a ajudou na organização do evento. Sentiu sua presença todo o tempo. No fim, as palavras de cada filho tocaram fundo e foi impossível segurar a emoção.

Novembro foi um mês de sorrisos, encontros com amigos e festas dançantes. Muitas fotos comprovam nossos pequenos momentos felizes. Mamãe e eu rimos por muitos motivos, pequeninas bobagens de uma convivência diária. Ela decidiu que todas as vezes em que for cozinhar carne, separará um pouquinho sem tempero e cozida no micro-ondas para Shee. Resultado: Ganhou uma sombra. Shee ouve mamãe na cozinha e corre para lá.

Então, chegou dezembro. Dezembro sem você.

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