Meu tio morreu

Meu tio morreu. Viveu à distância de alguns quarteirões, mas estava a quilômetros longe da alma e da bagunça familiar. Meu tio morreu distante. Ao lado de casa, do outro lado da rua, mas longe do conhecimento e do riso em família.

Meu tio morreu e meu pai chora. Chora também minha madrinha. São lágrimas de um tempo distante, em que eram crianças e viviam juntos, na casa de meus avós. São lágrimas do que poderia ter sido se tudo tivesse sido diferente.

Meu tio morreu e não havia brincadeira no Natal, nem presente no aniversário; não havia lembrança do aniversário. Não havia hábito, ou costume. Pouquíssimas vezes o vi. Morreu longe, no bairro ao lado, distante na alma.

Meu tio morreu e só hoje conheci minha prima, nunca a tinha visto, não conhecia seu rosto, nunca tinha ouvido sua voz. Conheci um rosto triste, ouvi a voz de choro, senti a sua dor. Crescemos na mesma parte da cidade, vivemos na mesma época, passamos uma pelas outra sem nos reconhecer.

Meu tio viveu longe e agora morreu. Continuará longe.

MPV – junho, 2008

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