Que barulho!

Viver na cidade grande dá trabalho. Principalmente para ouvidos acostumados ao canto dos bem-te-vis pela manhã.

O som dos automóveis não pára. Nunca. A impressão que tenho é que são os mesmos cinqüenta que, durante 24 horas, dão a volta no quarteirão e passam em frente à minha janela. Uns freiam mais fortemente, outros cantam pneu, outros aceleram o motor em ritmo constante e tedioso. Eles também combinam com algumas sirenes: nas horas ímpares, as sirenes de polícia em perseguição acelerada, nas pares as dos bombeiros e ambulâncias. Estão todos aqui, ao redor do meu prédio.

Os ônibus são um capítulo à parte. São quatro pistas, o ponto é do lado direito, mas eles trafegam por todas e quando são chamados, dão uma guinada escandalosa para quase conseguir atropelar a velhinha parada no sinal, esperando atravessar a rua. Um dia conseguirão.

Tenho, igualmente, sons diversos ao longo do dia. Logo cedo, pela manhã, o vizinho liga o cd player em elevado volume para que eu possa participar de sua louvação a Deus. E repete. Três dias na semana é a música “X” em repetição por uma hora; dois dias é a música “Y” por duas horas; dois dias ele viaja. Ufa!

Nos dois dias em que o fiel vizinho viaja, o casal infiel briga. Ele com ela, ela com ele, eles com os filhos e o cachorro late. Como o cachorro late, todos os outros do prédio latem em solidariedade. Inclusive a minha que, nessas horas, não costuma fugir ao chamado.

Em seguida à louvação, começam os baticuns de obra. Nesse edifício as obras não terminam nunca. Marreta, martelo, furadeira, compõem uma verdadeira sinfonia inacabada, temporariamente interrompida às seis da tarde. São os verdadeiros artistas musicais do século XXI.

O lixo (e haja lixo) é recolhido pelo caminhão todas as noites, após as 21 horas. O caminhão fica parado em frente ao meu prédio de cinco a dez minutos (eu disse que era muito lixo) enquanto os garis correm, buscando os sacos, e gritando, uns para os outros, palavras que não consigo ouvir porque a máquina do caminhão faz muito barulho e todos os vizinhos aumentam suas tvs nesse momento. É uma confraternização de tvs em canais diferentes.

As operadoras de tv à cabo, companhias de gás, águas e esgotos têm sempre um buraco para escavar em minha rua. Esses também combinam entre si, mudam o uniforme, abrem o buraco no asfalto, com aquele instrumento gentil, a britadeira, fazem barulho lá dentro por todo o dia, fecham o buraco, mudam o uniforme, trazem novamente a britadeira, usam a régua e abrem outro buraco à 46 centímetros do primeiro, fazem barulho, fecham o buraco, mudam o… e assim permanecem, dia após dia, como uma dízima periódica.

O amolador de facas e o vendedor de vassouras só passam uma vez por mês. Será que estou esquecendo alguém?

MPV – agosto 2008

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