Filmes em outubro

Filmes vistos ou revistos no último mês:

Um anjo no mar, de Frédéric Dumont – maravilhoso.

Film socialisme, de Godard – faça cara de entendido.

Cleveland versus Wall Street, de Jean-Stéphane Bron – podia ser melhor.

Fora da Lei, de Rachid Bouchareb – muito bom.

Um quarto em Roma, de Julio Medem – perguntem ao meu primo.

Flanders, de Bruno Dumont – exaustivo.

Viúvas sempre as quintas, de Marcelo Piñeyro – muito, muito bom.

Nossa Vida exposta, de Ondi Timoner – hum…

La nostra Vita, de Daniele Luchetti – gostei.

Azyllo muito louco, de Nelson Pereira dos Santos – ontem, hoje e sempre.

Gainsbourg, de Joann Star – gostei.

O retrato de Dorian Grey, de Oliver Parker – é bom, mas dá arrepios.

The Runnaways, de Floria Sigismondi – fraco.

Tropa de Elite 2, de José Padilha – muito bom.

O pequeno Nicolau, de Laurent Tirard – muito bom.

Coco Chanel & Igor Stravinsky, de Jan Kounen – bom.

Vincere, de Marco Bellochio – bom.

O Filho da Noiva, O mesmo amor, a mesma chuva e O segredo dos seus olhos, de Juan Jose Campanella – excelentes.

Ainda falta uma semana para o mês acabar…

50 anos agora

Ela carrega o mesmo sorriso de menina, os olhos verdes que quase se fecham enquanto a boca se abre no sorriso da faculdade. Rosa sorri enquanto penteia os cabelos de sua mãe e à medida que desliza as mãos pelos fios pensa na data que se aproxima.

Conceição e Paulo completarão meio século de vida em comum, cinquenta anos de casamento, dez-mais-dez-mais-dez-mais-dez-mais-dez anos de acordar juntos, dormir mão-na-mão, subir escada, descer do carro, levar filho, trazer neto, fazer comida, fazer amor, dançar de rosto colado, virar para o lado na briga, fazer as pazes acordados.

Conceição guarda o primeiro olhar trocado, Paulo olha e ainda vê a moça linda que subiu ao seu encontro no altar da igreja em Viana-do-Castelo, lá do outro lado do oceano, na terra em que nasceram. Rosa penteia hoje os cabelos da noiva de outrora.

Paulo rapazola, mão no bolso, enamorado da menina Conceição que só tinha permissão para encontros observados com rigor pelos mais velhos. Conceição, sentada, à espera do jovem noivo que não pediu só a mão: queria a moça inteira. Cinco anos se passaram entre o portão da casa e o altar da igreja. Cinco anos de beijos roubados, de dedos encostados, de escapadelas nos corredores, de planos e enxoval, cinco anos de espera. Chegou o dia 4, foi em outubro e Paulo, com o fato sob medida, segurou a mão de Conceição, agora toda sua, agora inteira sua.

Desembarcaram no Rio e a vida seguiu seu rumo. Filhos nasceram, filhos cresceram, filhos casaram, os anos passaram, os amigos vieram, os amigos mudaram, o amor permaneceu. Não foi fácil, pois nunca é, mas por toda a vida Conceição enxergou em seu marido, o jovem escolhido e Paulo ainda hoje vê a noiva mais linda nas mãos de sua filha Rosa.

Lauris

Hoje tia Lauris faz 80 anos. Digo faz porque ela está conosco todo o tempo. As lembranças de sua voz enrouquecida, veemente, ecoa pelos cantos, pelas ruas, pelos móveis escolhidos por ela, usados com ela. Hoje Lauris faz 80 anos e é uma celebração de vida, de privilégio por termos compartilhado de sua presença e de seu magnetismo. Hoje Lauris faz 80 e não sei se iria querer festa, uma pizza, um nhoque feito pelo Nelson bagunçando sua cozinha, um champagne, ou um passeio no parque. Só a família, ou a galera toda. Ou tudo ao mesmo tempo, porque ela foi muitas num tempo só. Suas frases de sabedoria ainda guardo na memória, apesar de esquecer quase tudo – digamos que eu tenho a memória do que é digno de ser conservado, como afirmou Hesse. Hoje Lauris faz 80 e aqui deposito meu beijo.

Ignorância

Diz o Houaiss a respeito de ignorância e meu interesse reside nas duas primeiras explicações:

substantivo feminino

1       estado de quem não está a par da existência ou ocorrência de algo

Ex.: i. dos fatos políticos

2       estado de quem não tem conhecimento, cultura, por falta de estudo, experiência ou prática

Ex.: i. musical

3       atitude grosseira; grosseria, incivilidade

Ex.: é de uma i. incrível no trato com as pessoas

Pois bem, outro dia estávamos conversando sobre fatos que ignoramos até que sejamos instruídos sobre eles. Cada um deu exemplos diferentes que afetaram nossas vidas em momentos variados: um falou sobre o uso do cinto de segurança em carros – como foi criticado na época e como hoje se tornou um gesto automático ao sentarmos em um veículo; outra falou sobre a Lei Seca – de novo, reclamada pela maioria que agora usa o táxi, ou outro meio de transporte, para se locomover entre a cerveja e a casa; eu falei sobre os cães perigosos – já tivemos dois Filas bravos, imensos, pesados e a fêmea, certa vez, fugiu de casa com o portão mal fechado e pulou em cima de uma amiga que me esperava, rasgando a manga de sua blusa. Coloquei a fera para dentro e pedi desculpas. Ficou por isso mesmo, nem nos passou pela cabeça a carnificina que poderia ter acontecido; outros falaram sobre alimentos e agrotóxicos; alguém mencionou medicamentos.

Como a ignorância sobre os perigos e malefícios já nos fez errar, hein?

Ontem fui à minha dermatologista que luta bravamente para tirar as manchas de sol de meu rosto. A cada sessão, ela passa um palitinho nas manchinhas, que ficarão bem escuras e deixarão meu rosto marcado por uma semana, até que criem casquinhas e caiam. Durante uma semana, escondo-me do sol e dos outros, o rosto salpicado de manchas feias, que as pessoas olham, acham estranho, não perguntam e eu não digo nada. Ninguém tem nada a ver com o passado de minhas manchas. Durante uma semana eu amaldiçoo os dias de sol sem protetor, os mergulhos infinitos sem boné, a ignorância que nos impediu de cuidar melhor antes para não intervir tanto depois. O que mais ando ignorando em minha vida?

Manual da empresa prestadora de serviço em vigor no país…

1- Trate mal o seu cliente – ele provavelmente não terá muita escolha ou paciência para mudar de empresa;

2- Repita frases que não resolvem o problema do seu cliente – ELE que tente resolver o problema, afinal a empresa presta já presta o serviço, né?;

3- Acredite cegamente que o seu cliente está lhe prestando um favor ao assinar o contrato com a empresa – quem mandou ele querer aquele telefone, aquele canal de tv, tomar banho E quente, acender a luz em casa, receber a correspondência no dia certo etc?;

4- Não deixe seu cliente falar com ninguém mais além do pessoal do atendimento que não foi treinado e chegou para trabalhar semana passada – jogue os seus funcionários às feras;

5- Deixe o seu cliente falando sozinho – incite o seu funcionário a voltar ao telefonema às gargalhadas para o cliente ter a certeza de que o telefonema dele só está atrapalhando o horário do cafezinho;

6- Desligue a ligação (finja que caiu) DEPOIS que o seu cliente já passou por várias etapas no atendimento e já confirmou os dados para, pelo menos, 3 pessoas diferentes;

7- Se o seu cliente ficar nervoso porque você não está nem tentando resolver o problema dele, desligue o telefone – provavelmente será o cliente a pagar a ligação;

8- Se o cliente também pedir os seus dados para confirmação, minta: dê um nome falso – assim quando seu cliente se referir a você, não saberão de quem ele está falando;

9- Se o seu cliente atrasar a fatura, corte o serviço, sem demora; mas se for a empresa que marcar com o cliente e não aparecer na hora marcada, dê uma desculpa esfarrapada e marque para outro dia quando ele ligar para reclamar – jamais ligue para o cliente para dar explicações pelo atraso ou o furo;

10- Deixe o seu cliente pendurado na linha, ouvindo musiquinha, enquanto você coloca em dia o papo com os amigos – e volte para a linha gargalhando, para que o seu cliente tenha a CERTEZA que você está de onda com a cara dele;

11- Apareça na casa de seu cliente para instalar o serviço sem avisar e na hora em que ele está saindo – se ele já tiver saído, deixe um recado confuso com o porteiro ou com o vizinho: isso obrigará o seu cliente a passar por todas as etapas no telefonema que ele será forçado a dar para o teleatendimento;

12- Se o seu cliente ficar nervoso e pedir desculpas depois, responda que não faz mal, que já está acostumado com isso – afinal, pelo serviço prestado TODOS os clientes gritarão mais cedo ou mais tarde e você não se incomoda mais em ser maltratado, apesar disso não fazer parte da sua descrição de cargo, nem estar incluído no seu salário;

13- Instale uma central de atendimento BEM confusa, de forma que o seu cliente não ache de primeira a pessoa com quem ele tem que falar;

14- Cobre caro por serviços que deveriam ser gratuitos. Seu cliente tem a obrigação de pagar por eles;

15- Não registre a comunicação de seu cliente. Assim ele terá que ligar novamente e pedir a outro atendedor que leia o que está escrito naquele protocolo – quando seu cliente descobrir que o protocolo gerado não tem nenhuma anotação, ele terá que falar tudo novamente e começará do zero;

16- Quando e se o seu cliente desistir de sua empresa, agende um telefonema para perguntar o porquê – escolha para essa função o funcionário mais novo, sem argumentação e sem preparo para lidar com um cliente cansado e raivoso e escolha uma hora imprópria para o telefonema: adivinhe a hora do banho ou do jantar, acerte quando o seu futuro ex-cliente estiver dirigindo.

Por enquanto é só. Manual em construção…

Cães e gatos

Sofia é a gatinha dos meus vizinhos. Fujona, a-do-ra tirar uma pestana na minha janela, no calor do quase sol.

Eu já estava para tirar essa foto há tempos, mas nunca era rápida o suficiente, ou estava escuro demais, ou eu estava na correria diária, dava tchau e ia embora.

Hoje consegui. Não posso dizer que ela foi das mais amorosas. Quando me aproximei de seu refúgio para tentar fazer uma foto mais de perto ela abriu a boca cheia de dentinhos afiados e fez como a mulher gato no filme do Batman. Bati a foto e em retirada rapidamente.

Quando cheguei em casa, Shee estava a minha espera e eu trazia um ossinho de presente para ela, que se comportou como uma cachorrinha educada em minha ausência.

Foi a deixa para ela começar a andar pela casa a procura de um lugar para enterrar ou esconder seu precioso tesouro. Gemeu, resmungou, só faltou reclamar do assoalho de madeira. Cadê a terra? Até que resolveu subir na poltrona do escritório e começou a cavá-la. Isso mesmo, cavou a poltrona do escritório sem muita convicção e lá esperou, parada, osso na boca, devia estar pensando o que fazer. Não resisti: saquei a foto ao lado – princesa osso na boca, poltrona azul real, livros ao fundo a espera da sabedoria canina…