Papai

Beijei sua testa ainda quente, seu cabelo carregava o perfume do dia anterior, segurei sua mão já sem a aliança, olhei para você deitado e não acreditei. Como não acredito até agora. Mamãe chorava em ondas, meu irmão telefonava com os olhos vermelhos. – Ele morreu… Como assim? Não foi isso o combinado… Foi diferente, fizemos planos, estávamos no início da execução, e agora? Continuaremos sem você, sem sua graça, sua risada, sua voz, sua presença. Que dor indescritível. Só quem já passou por ela, sabe.

Deitei a cabeça em seu ombro enquanto vários amigos chegavam para acreditar, para ajudar, para abrir e fechar portas. O médico chegou, olhou de longe para você, atestou qualquer coisa, já não fazia diferença. A família chegou e aqui está. Levaram você para uma sala, nos levaram para a mesma sala e nosso espírito ardeu com o seu corpo. Você voltou para Niterói, como pediu, nós retornamos à casa vazia, sem você. Desde então, comemos suas empadinhas, bebemos seu vinho, olhamos seus retratos, ouvimos sua voz gravada em vídeos caseiros. Desde então, rezamos para que você esteja em paz, tentamos ficar em paz, tentamos falar palavras doces uns para os outros, quando o que desejamos mesmo é mandar tudo à merda. Eu sei que você não gosta de palavras chulas, mas o momento pede. O táxi não quer parar? Vai à merda. O jornal encrencou? Merda. O copo partiu? Merda. Milhares de providências a tomar? Merda. O vizinho reclamou? Merda. Falamos alto? Esse pede a palavra que você não gostaria de ler, então não escrevo. Mas está subentendida. Toda noite, a partir da hora em que você chegaria em casa, vem alguém e nos leva para longe ou nos faz companhia, um revezamento provavelmente articulado por você. Mamãe, abalada, reclamou: – Seu pai morreu e parece que estamos em festa! A tristeza que nos assola é tamanha que só o atordoamento alcoólico nos permite dormir algumas horas a cada dia. E quando abro os olhos no dia seguinte, não acredito, fecho de novo, gemo baixinho e vem aquela onda de embrulho no estômago. O mais estranho de tudo é olhar as pessoas na rua, alheias ao nosso sentimento de perda e ver os sorrisos, ouvir pedaços de conversas, perceber que a vida continua para elas, os blocos batucando, o Flamengo campeão, tudo isso, que não é pouco, é quase uma ofensa pessoal à nossa dor. Hoje vamos vencer mais um dia, vamos nos despedir, novamente, de você. Acho que a cada dia, iremos nos despedir um pouquinho de você, já que você não estará sentado na cabeceira, não dará sugestões, não estará presente para ver os netos crescerem. Dizem que nós nos acostumaremos com sua ausência, mas a saudade só crescerá. Não é um prognóstico positivo, uma vez que a saudade já é imensa. Vamos. Um dia de cada vez.

Insânia, Insânia e só insânia

“Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Senhor Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.” (M. Assis, O Alienista)

Meu trabalho é também sobre Machado. O de Assis, não o instrumento ceifador de árvores e pescoços. Quando leio aqueles textos, os contos, os romances, as crônicas do século XIX, fico nas nuvens. É como uma droga que me sustenta no ar e me faz respirar descompassadamente. Quando ele escreve especialmente para mim (já que se dirige ao prezado leitor, a quem o lê e quem o lê sou eu, então é para mim que escreve), chego a ruborizar. Machado me escreve e não me chamo Carolina.

Então dá uma vontade louca de escrever daquele jeito, mas olho pela janela, com meu cabelo preso, um grampo de dois reais, por causa do calor… Não… Calor é pouco, o portal do inferno, o próprio inferno que abraça o meu Rio de Janeiro nesses quatro meses do ano, olho meu vestido colorido, ouço a TV do vizinho sintonizada em um jogo qualquer e ouço também seus comentários e gritos e soluços dignos de Maracanã mesmo em obras, sinto a dor de cabeça que não me larga como se fosse um carrapato escondido, reconheço que, mesmo existindo um pouquinho daquele talento, não seria capaz de reproduzir parágrafos como aqueles no ambiente de agora. Ah, sim… Esqueci dos fogos. Soltam fogos também. O visual fogueteiro pode até ser muito bonito, se a gente pudesse ver no mute.

Pois bem, o que eu estava querendo encadear era uma conversa com o leitor deste post, algo que Machado nem imaginou ser possível existir um dia. Teria lhe facilitado muito a vida… Mas seria qualquer coisa como: você que me lê não imagina como foram minhas duas últimas semanas. Não, não se espante, porque todos estão com a saúde mais ou menos em dia, uma dieta ali, uma dorzinha aqui, mas nada que tire o sono. Por enquanto. Não de novo. Não ainda. Mas foram semanas complicadas, coisas boas e ruins aconteceram, acho que os seus dias também são assim, não, leitora? (vou modificando o gênero para agradar a todo mundo). Coisas boas em primeiro, para começar bem: a saúde, como já mencionei, o encontro com amigos, o musical maravilhoso, Hair, já assistiu? A simples existência dos meus três sobrinhos, a alegria de Shee Marie quando encontra um de seus amores. Como eu ia dizendo, caro leitor, tive notícia de gente desaparecida há muito, que eu não consegui categorizar ainda se foi bom ou ruim, mas tive reencontro maravilhoso com amigos que não via há muito. Isso foi realmente bom. O trabalho da monografia está atrasado, mas segue um rumo bacana. E isso também não sei caracterizar se é bom ou ruim. As leituras estão na categoria “bom”: Tanto de estudos para preparação do texto, quanto em geral, como por exemplo, a vida maluca do Keith Richards, que muito me fez rir e a última crônica do Arnaldo Bloch falando sobre Cisne Negro. Prezada leitora, parece até que conversamos antes dele escrever! Concordo com tudo o que ele disse. E recortei e guardei em meus alfarrábios. Ah, sim… Falando em filmes, já assisti muitos, mas queria ver também Malu de bicicleta, bravura indômita e inverno da alma… Os outros que queria assistir, já consegui. Facilidades de morar ao lado de 18 cinemas… Não! Não exagero… Abra o jornal e conte quantos cinemas existem ao meu redor… Bem, para não dizer que detesto totalmente o verão no Rio, tem uma coisa que fica na categoria “bom”: chope à noite, na calçada, em qualquer um dos inúmeros bares e restaurantes, com a brisa que vem do mar e atravessa concreto e vidro e chega até você, sentadinho àquela mesa, pós-qualquer coisa: cinema, teatro, concerto, até mesmo praia. Isso é bom demais. O que mais? Acho que das coisas boas já falei, das uncategorized também já falei, agora, prepare-se para a categoria “ruim”… Foi… Bem… Humm… Sabe que não aconteceu nada de ruim? Como diz minha irmã-maga, até mesmo o que parece ruim no primeiro momento, transforma-se em algo muito bom em seguida. Então, leitora, só me resta agradecer que a vida tenha sido tão generosa comigo nas últimas semanas… Agora vou tomar outro comprimidinho só para a dor de cabeça ir embora de vez. E começar mais uma semana de bem com tudo. Ah! Já me esquecia… O carnaval está chegando e o Rio fica mais colorido, divertido, maravilhoso. Você também gosta de carnaval, leitor?

Aquele que voa mais alto

Na reta final de concluir a escritura da monografia, descubro um documento que passa a me interessar mais pelo prazer de possuí-lo por inteiro do que pelo fato de acrescentar nova informação à tese formulada. Procuro, através da internet, mas só encontro referências e alguns trechos do doc. Como sei quem é o dono, peço ingênua ajuda ao meu tio, que me conta uma história de arrepiar os cabelos sobre o sujeito em questão.

Como meu tio é um escritor de primeira grandeza e coração largo, ao me explicar as vilanias do sujeito, completou com uma frase que fez meu coração acelerar, tão bonita a enxerguei: “espero que a terra lhe seja leve.” Que sofisticação, quanta emoção contida numa frase quase à toa. Tolice minha. Grandes escritores não escrevem frases à toa.

Agradeci e respondi que a vida já é o suficiente difícil, para procurarmos mais confusão.

Mas a frase ecoa em meus ouvidos: “espero que a terra lhe seja leve.” Espero que a terra lhe seja leve. Mais forte que um texto inteiro, mais violenta que um xingamento à mãe, mais intensa que a raiva, a frase diz tudo o que a alma de um poeta – como é meu tio – pode sentir.

Meu tio, que é amigo de meu pai há mais de 50 anos, e a quem não chamo de tio, porque sempre foi – e continua sendo – bonito demais para chamá-lo assim, tem histórias para contar. Adoro ouví-las, nos raros encontros, nos telefonemas frequentes, ler em seus livros publicados.

Que a terra lhe seja leve… Continua o eco, enquanto lembro os meus tempos de menina quando tinha que sair da sala para ele relatar torturas recebidas nos porões da ditadura. Fugiu do país, passou anos nos exílios, voltou com outras histórias, de liberdade, de neve e frio.

Sou a fiel depositária de suas cartas, desse tempo que já vai longe, assinadas como Zenon Omonte, para não complicar a vida de meu pai nos anos de chumbo do país. Meu irmão leva o nome de seu irmão, que desenhou uma caricatura de meu pai em crise alérgica, com direito a versinho, quando eram muito jovens e a vida, além do mundo, lhes pertencia e era infinita.

A terra lhe seja leve… Para quantas pessoas, ao longo da vida, terá ele desejado essa frase violentamente poética? “Aquele que voa mais alto”, como o chamava o professor de inglês do Colégio Mello e Souza, continua ensinando vida a seus pupilos, sobrinhos, amigos. Assumirei como lema seu mais recente ensinamento: Espero que a terra  seja leve a quem quer que tente escurecer a luz de meus dias.

Friburgo

Friburgo faz parte da minha vida desde minha infância. Fui apresentada à cidade por meus tios e primas, quando o Banco do Brasil achou que lá seria o primeiro posto da carreira de meu padrinho. Tenho fotos em preto e branco, brincando no quintal com as primas, andando de charrete puxada a bode na pracinha, só não tenho dos cavalos, porque morria de medo deles.

Quando meus tios/padrinhos se mudaram de Friburgo para Brasília, o lado daqui da família já estava enamorada da cidade, a melhor, maior e mais bonita das serras do Rio de Janeiro e lá construímos uma parte importante de nossas vidas.

Naquele tempo, a viagem era uma “viagem”, pegávamos o carro e meu pai escolhia qual o caminho a seguir: íamos até à praça XV, onde pegávamos a balsa de automóveis, atravessámos a baía em direção à Niterói, seguíamos pela Alameda São Boaventura em direção a Itaboraí, chegávamos à Rio-Friburgo e subíamos a serra dos nossos sonhos; ou seguíamos para Caxias, rodávamos pela Rio-Teresópolis, entrávamos em Parada Modelo, chegávamos a Cachoeiras de Macacu, passávamos pela casa com persiana do lado de fora da janela e subíamos a serra dos nossos sonhos. A ponte Rio-Niterói ainda não existia.

Na maioria das vezes, a viagem era feita à noite, com o céu cada vez mais estrelado, conforme nos afastávamos das luzes da cidade grande, e eu deitava esticando o pescoço para olhar pelo vidro traseiro do opala e imaginar quem vivia naquelas luzes distantes. Era uma diversão, quando criava histórias de pura magia.

Nos álbuns de fotografias familiares, não há uma data sequer que não tenhamos passado em Friburgo, férias, feriados, nascimentos, mortes, aniversários, começos, descobertas e recomeços. Posso dizer que minha vida, com intervalos, foi passada na cidade, onde ri, chorei, namorei, brinquei, perdi e achei.

Muito tempo depois das andanças de charrete, no meio de umas férias, a família foi a Porto Alegre para os quinze anos de minha prima que, àquela altura, já tinha se mudado mais uma vez por causa de meu padrinho. Era 1979 e quando retornamos à cidade, o impacto visual que tivemos, dias depois da inundação, após chuvas de verão, foi impressionante. Quando chegamos, as ruas já estavam lavadas, o comércio funcionava normalmente, o carnaval estava confirmado, mas a imagem do fusca laranja acorrentado ao poste na Avenida Comte. Bittencourt, perto do Paissandu, ficou marcada para sempre.

Isso foi há 32 anos e ano sim, outro também, vivemos chuvas, inundações e desabamentos de menor ou maior grau. Entre 2003 e 2008, os verões vividos em Friburgo deixaram chuvas, incômodos e alguns estragos. Em 2007, no dia 10 de janeiro, saí de carro e máquina na mão, fotografando a destruição das chuvas de dois dias antes. Revi essas fotos hoje, dia 13 de janeiro de 2011, dois dias depois de uma tsunami pluvial ter arrasado a cidade de minha vida inteira.

Essas chuvas começaram na noite de terça-feira e desde ontem as poucas notícias que leio, ouço e vejo sobre Friburgo são escritas nos pretéritos perfeito e imperfeito, o que me causa uma incômoda estranheza. A cidade está lá, debaixo de lama e detritos, mas está lá. É tempo presente. Ontem consegui falar ao telefone (fixo, os celulares estão fora do ar) e saber algumas notícias, hoje não mais: só ouço aquele tum-tum-tum indefinido de telefone inexistente. A cidade está sem luz, sem água, sem telefones, sem internet, o comércio está fechado, imagino que minha sobrinha não tenha tido aula novamente, mas não consigo falar com ela. A TV não mostra, nem menciona os arredores do centro de Friburgo, o que só aumenta a aflição. Os jornalistas sabem que existe algo além da Praça Getúlio Vargas e do teleférico no Suspiro, se não mencionam é porque nada aconteceu, ou não conseguem chegar lá? Sumidouro entrou na soma dos mortos. E Bom Jardim, Lumiar, São Pedro, Macaé de Cima, Duas Barras? Conselheiro Paulino, Braunes, Cônego, Amparo? Como estão essas localidades e bairros?

No momento em que escrevo, estão ao vivo, na TV, o governador do estado e a presidente do país. Relatam o que já foi relatado, prometem o que já foi prometido, citam prefeitos antigos negligentes, chamam-nos de populistas (?!), discordam de percentuais de repasses de verba em listas de ONGs que acompanham os gastos públicos e comprometem-se com a prevenção unida à reconstrução.

Quem acredita?

Bom… Após nove horas tentando, consegui falar com um número fixo de telefone. Minha sobrinha continua bem, a família em choque, mas com saúde e unida. Acompanharemos os próximos dias e, apesar de já ter vivido muito nesse país, uma parte de mim ainda precisa ter esperança de que algo mudará.

Feliz Ano Novo

Em 2011,

Para os distantes, presença;

Para os europeus, navios que atravessem o oceano;

Para os americanos, asas para os trópicos;

Para os que não vejo há muitos anos, encontros;

Para os que vi e perdi, reencontros;

Para os que perdi, saudades;

Para os que não entendem, compreensão;

Para as novas amizades, continuação;

Para os amigos, vida;

Para os zangados, gentileza;

Para os felizes, eternidade;

Para os sempre presentes, amor;

Para os com crianças, brincadeiras;

Para os com animais, cuidados;

Para a família, união;

Para cada um e todos, paz e saúde.

Dante Milano, tercetos

Eu sou um rio, a água fria de um rio.

profundo, cabe em mim todo o vazio,

Um reflexo me causa um calafrio.

Sou uma pedra de cara escalavrada,

Uma testa que pensa, e sonda o nada,

Uma face que sonha, ensimesmada.

Sou como o vento, rápido e violento,

Choro, mas não se entende o meu lamento.

Passo e esqueço meu próprio sofrimento.

Sou a estrela que à noite se revela,

O farol que vê longe, o olhar que vela,

O coração aceso, a triste vela.

Sou um homem culpado de ser homem,

Corpo ardendo em desejos que o consomem,

Alma feita de sonhos que se somem.

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta

Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:

Significação grande, mas secreta.