A boa-fé

A boa-fé cansa. A boa-fé causa problemas. De boa-fé assinei um contrato em que se tudo desse errado para eles, eu pagaria; se tudo desse errado para mim, voltaríamos para o zero. Com boa-fé Marluce fez amizade eterna com Cacilda, louca de pedra, e eu disse: “ela é louca”. Alguns anos depois, a louca virou pedra e Marluce saiu correndo. De boa-fé Ariadne trouxe remédios que não precisam de receita no exterior, e prolongam a vida sofrida de Emília, que tem uma doença incurável, e foi presa pela PF por contrabando de substância proibida pela Anvisa. A boa-fé causa prejuízos emocionais. A boa-fé constrange. Com boa-fé Sofia viajou com uma infecção no pé e medicada. Perdeu parte da viagem, poderia ter perdido o pé ou a vida. A boa-fé provoca medo. A boa-fé faz com que eu acorde acreditando que o dia seguirá seu fluxo honesto, contanto que eu me aliene das notícias dos jornais. A obrigatoriedade faz com que eu vote, porque aí não mais existe boa-fé. A necessidade faz com que eu gaste horas ao telefone com funcionários maltreinados de empresas de serviços, porque aí nunca houve boa-fé. A boa-fé dá trabalho. No entanto, a boa-fé nasceu comigo, cresceu em mim enquanto eu emprestava as bonecas, brincava com as amigas e trabalhava em equipe. A boa-fé fez de mim uma pessoa apatetadamente crente de que o bem prevalecerá. A boa-fé cansa.

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Até o próximo carnaval

Carnaval sempre foi assunto sério em família. Brincamos o carnaval desde pequenos, em suas mais diferentes formas, blocos de rua, bailinhos de salão, escola de samba, festa em casa. Papai inventava blocos que nunca saíam de sua imaginação e de sua gaiatice: BBMB foi o Bloco dos bolas murchas das Braunes, um bloco implicante com filhos e sobrinhas adolescentes que sambavam nos bailinhos até o dia amanhecer, seguiam para a canja da sustância, no restaurante do clube, e passavam o dia dormindo, restabelecendo forças para a noite seguinte. Empurra que pega veio depois, ninguém empurrou, o bloco não pegou e ninguém saiu das brincadeiras em casa. Meu padrinho não viajava para férias em família sem o timbau, muitos anos antes do instrumento correr mundo no ritmo da timbalada. Batucava e fazia contraponto com a mão da aliança, era um som único para nós. Eu cresci com o rock na cabeceira, mas carnaval era outra coisa, outro momento, era a nossa folia. Alguns anos depois, papai foi o chef que preparava os melhores sanduíches para depois dos ensaios do Suvaco do Cristo, aos domingos, no Horto. Mangueirense, torcia pela escola como para o próprio time de futebol, sempre com muita parcialidade, chegou a ligar para mim, de férias no México, só para dizer que Mangueira havia sido a campeã daquele ano.

Vivi outros carnavais divertidos em ensaio da Portela, no ensaio do Salgueiro com Bono na pista e meus amigos tentando o suicídio coletivo por insolação ou correndo atrás da calota perdida em direção a Tiradentes em carnaval já relatado aqui. Sassaricando na Glória e com Monobloco na Cinelândia. Vivi muitos carnavais, sinto saudades deles e anseio pelo próximo em que estarei presente.

Faz dois anos que o carnaval passa pela esquina e não me carrega. Vejo a alegria do povo nas ruas, me divirto com algumas fantasias, torço para a chuva não estragar a festa, escolho um livro e fico quieta no meu canto. Quem sabe o próximo me arrebatará.

A música de um carnaval distante

Quem é você?

‑ Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

‑ Quem é você, diga logo…
‑ Que eu quero saber o seu jogo…
‑ Que eu quero morrer no seu bloco…
‑ Que eu quero me arder no seu fogo.

‑ Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
‑ O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
‑ Eu tenho um pandeiro.
‑ Só quero um violão.
‑ Eu nado em dinheiro.
‑ Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
‑ Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
‑Eu sou tão menina…
‑ Meu tempo passou…
‑ Eu sou Colombina!
‑ Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

O som de um carnaval distante

Digi (58)

Ecos de um carnaval distante

1975 - Brasilia

é carnaval…

A luz do Tom

a luz do tomEstreia hoje o novo documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim, complementação, com fino acabamento, do filme do mesmo diretor,  que assistimos em 2012 sobre o maestro. Enquanto no primeiro filme tivemos um recorte de momentos do Rio e da carreira de Tom, embalados por sua música,  no segundo travamos conhecimento de histórias por meio de três mulheres fundamentais em sua vida: Helena, Teresa e Ana.

Algumas dessas histórias estão na biografia escrita por sua irmã Helena, mas recebem novo tratamento quando levadas pela câmera para a tela do cinema. Fica fácil o teletransporte para um Rio que não existe mais e para a companhia do compositor da trilha sonora da vida de muita gente, inclusive da minha.

Em um momento em que o Brasil desperta para apreciar a vida de grandes nomes, com vários documentários interessantes e fundamentais para o registro da nossa história, é essencial assistir A Luz do Tom, uma poesia filmada pelo mestre do cinema nacional, que nos proporciona momentos de relaxamento e prazer, conhecimento e reconhecimento.