Eu e o outro eu

Ela abriu os olhos grandes e escuros e sorriu com a boca sem dentes para o homem grande à sua frente. Ele abriu os braços e ela se jogou em total confiança, aninhou-se e nunca mais sairia de sua segurança. Uma bola jogada na direção dos dois desviou a atenção da menina, que levantou a cabeça. – Deita, filhinha, deita – pediu o pai, com carinho, enquanto aconchegava a filha novamente na posição confortável para transportá-la pela areia quente, cheiro de maresia, em direção ao calçadão.

Ela não desgrudava os olhos da TV, assistindo a um filme com monstros violentos e destruidores, e não deu bola para ele que entrou na casa, com cheiro de comida recém-feita. Desligou a TV, pegou a filha, que reclamava, no colo. – Muito violento, filhinha, muito – respondeu ele, quando a menina se queixou de não assistir o final.

Ele saiu do carro e a ajudou a descer, com um vestido longo e comprido, deu um beijo em sua bochecha e pegou sua mão na dele, enquanto caminhavam pela nave da igreja cheia, com cheiro de flores, em direção ao altar. – Seja feliz, filhinha, bem feliz – encorajou o pai, enquanto se dirigia ao lugar reservado a ele na cerimônia.

Ela chegou em casa e o encontrou deitado na cama, coração parado, olho fechado, tempo mudo. Pegou as mãos do pai e as segurou por muito tempo entre as suas. Beijou sua cabeça, com cheiro dos cabelos grisalhos, deitou em seu ombro, e disse só para ele: – Dorme, paizinho, dorme. Em paz e até breve.

 

A imagem encantada

Primeiros momentos à espera do sonho que me levará ao destino de múltiplas faces. Carrego no bolso a imagem encantada que, presenteada com afeto, muda a vibração do ser.

Em conversa com minha irmã, verificamos a diferença de vibração energética no último ano. Antes, o espírito de carregação dizia “tu deves” e agora o espírito de liberdade diz “tu queres”.

Não somente questões inspiradoras do desejo se impõem. Mostram-se, novamente, as garras do “eu quero” que sempre me fizeram andar para frente, viver minha vida de forma encantada, conseguir, muitas vezes, após árdua batalha, meus objetivos, ir e vir, trabalhar com prazer, fazer o que mais gosto, sonhar e concretizar sonhos que muitos sequer tiveram e outros jamais ousaram.

Chegada

Desde todo o sempre havia imaginado o que sentiria, como seria a sua chegada. Imaginava cenas, contava passos, trocava olhares, antecipando a sensação do momento, antecipando a emoção sentida.

Desde o início, senti que seria meio mágico, meio trágico; senti que seria tudo ou nada, não seria meio termo. Sentia as cores, ouvia sons que fariam parte do momento; tudo seria marcado pela espontaneidade, de acordo com o imprevisível, em parceria com o desconhecido.

Desde o primeiro momento, sua chegada era aguardada, ansiada, precisada. Muito tempo depois de partir foi que encontrei seus olhos, olhei no fundo mais fundo de seus olhos e o vi, o enxerguei. Olhamos-nos rapidamente, balançamos a cabeça e soubemos, então, que nossas vidas estariam para todo o sempre ligadas de alguma forma forte e única de nós mesmos.

Quando vi seus olhos me olhando, febris, insones e incendiários, não consegui desviar, não consegui deixar de olhar. Quando entendi que nada compreendia, que não aceitava, abaixei meus olhos para mim mesma, debrucei sobre meu íntimo, descobri minha alma e viajei por lugares não visitados, revisitei lugares conhecidos, que na aurora de meus dias me impulsionaram para a frente e me fizeram crescer.

Quando pegou minha mão e entre seus dedos esquentou os meus, energia forte, ouvimos sons e trovoadas internas sacudiram a razão da impossibilidade e nos deixaram a sós, a decidir nosso tempo, a descobrir ou tentar descobrir o que viria pela frente.

Hoje, quando volto aos lugares conhecidos de tanto tempo, não sei ao certo se tudo não passou de um sonho que ainda vivo, ou se é a vida de verdade que vivo como se fosse um sonho, por vezes manchado de escuro, uma sinfonia inacabada, um sax a me guiar o caminho de volta a superfície.

Desejo 2

No momento em que você me olhou de volta, com a entrega estampada em seu rosto, eu soube. Você não voltou, chegou. Chegou a um lugar há muito procurado, há tanto almejado. Seu olhar foi de eternidade no minuto, olhar de súplica, desejo e promessa. Você me olhou de perto, bem perto, pela primeira vez, e não houve sombra ou dúvida, estava dito pelos seus olhos. A partir dali, tudo foi encaixe, quando eu segurei sua mão, perguntei porque demorara, quando envolvi seu corpo com meus braços, aconcheguei meu rosto no seu e beijei sua boca com intensidade e delicadeza. Meu beijo tinha gosto de vinho conhecido, tinha gosto de beijo novo, tinha gosto. Meu gosto. Você estremeceu e sorriu para mim, um sorriso só meu. Segurei seus cabelos e seu pescoço com firmeza, olhei de volta para você e mostrei que seu lugar era lá, perdida em meu abraço. Ou encontrada, em meus braços.

Pedaços pelo caminho

Naquela tarde quente de dezembro você entrou na casa vazia, viu os fragmentos de uma vida dispostos e arrumados em cima da cômoda e percebeu que a vida mudara. Não haveria retorno possível. Sentou na cama e chorou.

Naquela noite fria de abril, você retornou à casa vazia, viu os espaços não ocupados e percebeu que a vida mudara. Ligou a TV, sentou no chão com o uísque na mão e chorou.

Naquela manhã fresca de março, você entrou em casa e percebeu que a vida mudara, viu o futuro vazio, deitou na cama e chorou.

Naquela manhã quente de abril, você atendeu o telefone, morreu um pouquinho e percebeu que a vida mudara. Manteve-se forte e dias depois, exausta, fraca, jogou-se no sofá e chorou.

Naquela manhã quente de fevereiro, você acreditou-se presa em um filme B de terror, percebeu que a vida mudara e simplesmente chorou.

Escolhas, traçados, destino, escritos, em cada um desses momentos, você deixou um pedaço seu pelo caminho. Não é possível recolher os pedaços perdidos, a vida é que continua em suas tentativas.

Dentro da noite fria

Dentro da noite fria, um calor percorreu dedos e entrelaçou mãos, antecipando momentos e acelerando emoções. Ao primeiro toque houve o reconhecimento do sempre, o esclarecimento da espera, o encontro de toda a busca. Um certo receio de enxergar além da alma se apossou. Mas tão breve como veio, foi-se pois era promessa de vida. Chegava o momento eterno. Quando, de mãos dadas e coração disparado, o olhar se encontrou, foi a urgência do tempo, foi a saudade do nunca e foi o beijo suspirado que ficaram impressos na pele.