Estações

Caía uma chuva fina naquele dia cinzento e frio. Ele estacionara o carro em sua vaga, mas continuou sentado em seu interior, sem muita vontade de encarar o vento do lado de fora.

Suspirou fundo, esperou a música acabar, vestiu as luvas e saiu. Começou a subir as escadas que o levariam a seu apartamento, segurando o corrimão com a mão direita, enquanto carregava algumas sacolas de supermercado com a outra.

Abriu a porta da casa e foi até a cozinha deixar as compras. Era bom entrar no ambiente aquecido e deixar o gelo para trás. Tirou as luvas, jogou-as no aparador do corredor e começou a descascar as camadas de roupas. Entrou na sala, onde Ziggy levantou a cabeça, abanou o rabo sem vontade e sem sair da cama. Em outro tempo, ele esperaria na porta de casa, animado.

Pegou uma garrafa de vinho e bebeu a primeira taça de um gole só. Serviu outra. Ligou a música, pegou Ziggy no colo e sentou-se no sofá, onde os jornais do dia estavam espalhados. A casa estava sempre bagunçada desde que ela partira. Ela, que fora seu sol, seu calor, seu riso mais franco, sua cúmplice, partira e, desde então, sua vida era inverno.

 

Temgenteescrevendo

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Músculo

Se me perguntarem se vivi muito, poderei pensar que não. Mas não foi bem assim. Vivi intensamente cada paixão que me foi dada de presente. Acho que as paixões são presentes que recebemos, também acredito que são escolhas que fazemos. Escolhi viver aquelas e não outras. Sempre houve mais de um caminho e todos escolhi com o coração. Usei tanto meu coração que hoje ele é fraco e bate com a ajuda desse motor que regula seus suspiros. Por muito tempo quem regulou meus suspiros fui eu, agora é essa máquina ao lado da cama que infla e desinfla meu peito.

Comecei a gastar meu coração bem nova, Zezinho fez a primeira cicatriz no músculo em meu peito. Trocou-me por uma caixa nova de lápis de cor que a outra menina deu de presente. Depois dele, a lembrança que tenho é de uma fila de meninos e homens que entraram em meu coração e saíram dele expulsos por mim ou fugidos de mim, não importa, todos deixaram feridas. E tantas feridas depois, meu coração um dia não quis mais, pediu-me para deixá-lo quieto e como eu teimasse em não atendê-lo, estendeu-se no soalho do meu peito e recusou-se a obedecer ao impulso involuntário de bater sozinho. Agora seu uso é estritamente para me manter viva, mas sem vida porque funciona, mal, apenas como músculo, desativou sozinho sua tecla do amor.

Durmo e acordo nesse quarto amarelinho, sou alimentada por um tubinho, cuidada por enfermeiras delicadinhas para que meu coração que já foi grandão, possa seguir batendo em um ritmo ordenado pelos médicos. Já tentei alcançar o botão off, mas não consigo me mexer sozinha, tudo o que tenho são as cicatrizes incapacitantes e paralisantes. De que me vale o funcionamento desse músculo se ele não me permite usá-lo para amar? Posso dizer que a briga foi sangrenta, mas ele não cedeu. Um dia, como eu insistisse em desafiá-lo, jogou-me no chão e deixou-me desacordada por horas. Salvou-me o vizinho, objeto último de meu desafio, que me trouxe para esse quarto em que vivo agora. Nunca mais voltou, o vizinho. O bom samaritano quer um coração inteiro e não um despedaçado como o meu, sem a tecla de amor.

A imagem encantada

Primeiros momentos à espera do sonho que me levará ao destino de múltiplas faces. Carrego no bolso a imagem encantada que, presenteada com afeto, muda a vibração do ser.

Em conversa com minha irmã, verificamos a diferença de vibração energética no último ano. Antes, o espírito de carregação dizia “tu deves” e agora o espírito de liberdade diz “tu queres”.

Não somente questões inspiradoras do desejo se impõem. Mostram-se, novamente, as garras do “eu quero” que sempre me fizeram andar para frente, viver minha vida de forma encantada, conseguir, muitas vezes, após árdua batalha, meus objetivos, ir e vir, trabalhar com prazer, fazer o que mais gosto, sonhar e concretizar sonhos que muitos sequer tiveram e outros jamais ousaram.

O casal mentira

Tudo aconteceu muito rápido, eles se conheceram e não gostaram um do outro. Mesmo assim, em menos de três meses estavam casados e foram morar em um apartamento, em Copacabana, que ambos detestaram à primeira vista. Ele a achava feia, sem graça e meio pançuda. Quando falava com ela dizia que era a mulher mais sensual do mundo. Ela acordava mais cedo para não ter de enfrentar o bafo de onça do marido descabelado. Seguia para um banheiro e só saía depois de ouvir correndo a água do chuveiro do outro. O café da manhã era o primeiro festival de mentira do dia. Ele a chamava de chuchuzinho e ela respondia com um sorriso encaretado que ele era o seu ursinho careca.

O casal mentira seguia cada um para o seu trabalho, um oásis no meio do conto assombrado que se propuseram a viver. À noite, quando se reencontravam, o festival esquentava, ele ligava a TV para um futebol e perguntava se ela queria ajuda na cozinha. Ela seguia para os afazeres do jantar e respondia que apreciava a companhia do marido, mas preferia a cozinha na solidão. Tudo mentira. Ele não queria entrar na cozinha e ela não queria a sua companhia. Se um dos dois resolvesse falar a verdade, haveria congelamento de expectativas e gestos.

Quando terminavam a noite na cama, o festival atingia o ápice. Ele era sem paciência e ela era demorada. Revezavam nos gozos sem combinação. Um dia ele perseverava na pançuda, no outro ela fingia bem fingido para acabar logo e o urso descansar. A mentira era a verdade da vida dos dois, até certo dia em que ela perdeu a hora e ele acordou com gosto de menta. Levantaram juntos, ele entrou na cozinha e a ajudou a fazer café, saíram ao mesmo tempo para  trabalho e quando voltaram à noite, pediram a separação ao mesmo tempo. Para eles, viver na mentira havia sido mais fácil.

Chegada

Desde todo o sempre havia imaginado o que sentiria, como seria a sua chegada. Imaginava cenas, contava passos, trocava olhares, antecipando a sensação do momento, antecipando a emoção sentida.

Desde o início, senti que seria meio mágico, meio trágico; senti que seria tudo ou nada, não seria meio termo. Sentia as cores, ouvia sons que fariam parte do momento; tudo seria marcado pela espontaneidade, de acordo com o imprevisível, em parceria com o desconhecido.

Desde o primeiro momento, sua chegada era aguardada, ansiada, precisada. Muito tempo depois de partir foi que encontrei seus olhos, olhei no fundo mais fundo de seus olhos e o vi, o enxerguei. Olhamos-nos rapidamente, balançamos a cabeça e soubemos, então, que nossas vidas estariam para todo o sempre ligadas de alguma forma forte e única de nós mesmos.

Quando vi seus olhos me olhando, febris, insones e incendiários, não consegui desviar, não consegui deixar de olhar. Quando entendi que nada compreendia, que não aceitava, abaixei meus olhos para mim mesma, debrucei sobre meu íntimo, descobri minha alma e viajei por lugares não visitados, revisitei lugares conhecidos, que na aurora de meus dias me impulsionaram para a frente e me fizeram crescer.

Quando pegou minha mão e entre seus dedos esquentou os meus, energia forte, ouvimos sons e trovoadas internas sacudiram a razão da impossibilidade e nos deixaram a sós, a decidir nosso tempo, a descobrir ou tentar descobrir o que viria pela frente.

Hoje, quando volto aos lugares conhecidos de tanto tempo, não sei ao certo se tudo não passou de um sonho que ainda vivo, ou se é a vida de verdade que vivo como se fosse um sonho, por vezes manchado de escuro, uma sinfonia inacabada, um sax a me guiar o caminho de volta a superfície.

Desejo 2

No momento em que você me olhou de volta, com a entrega estampada em seu rosto, eu soube. Você não voltou, chegou. Chegou a um lugar há muito procurado, há tanto almejado. Seu olhar foi de eternidade no minuto, olhar de súplica, desejo e promessa. Você me olhou de perto, bem perto, pela primeira vez, e não houve sombra ou dúvida, estava dito pelos seus olhos. A partir dali, tudo foi encaixe, quando eu segurei sua mão, perguntei porque demorara, quando envolvi seu corpo com meus braços, aconcheguei meu rosto no seu e beijei sua boca com intensidade e delicadeza. Meu beijo tinha gosto de vinho conhecido, tinha gosto de beijo novo, tinha gosto. Meu gosto. Você estremeceu e sorriu para mim, um sorriso só meu. Segurei seus cabelos e seu pescoço com firmeza, olhei de volta para você e mostrei que seu lugar era lá, perdida em meu abraço. Ou encontrada, em meus braços.

Pedaços pelo caminho

Naquela tarde quente de dezembro você entrou na casa vazia, viu os fragmentos de uma vida dispostos e arrumados em cima da cômoda e percebeu que a vida mudara. Não haveria retorno possível. Sentou na cama e chorou.

Naquela noite fria de abril, você retornou à casa vazia, viu os espaços não ocupados e percebeu que a vida mudara. Ligou a TV, sentou no chão com o uísque na mão e chorou.

Naquela manhã fresca de março, você entrou em casa e percebeu que a vida mudara, viu o futuro vazio, deitou na cama e chorou.

Naquela manhã quente de abril, você atendeu o telefone, morreu um pouquinho e percebeu que a vida mudara. Manteve-se forte e dias depois, exausta, fraca, jogou-se no sofá e chorou.

Naquela manhã quente de fevereiro, você acreditou-se presa em um filme B de terror, percebeu que a vida mudara e simplesmente chorou.

Escolhas, traçados, destino, escritos, em cada um desses momentos, você deixou um pedaço seu pelo caminho. Não é possível recolher os pedaços perdidos, a vida é que continua em suas tentativas.