Terás muitos outros, antes e depois, mas ele é quem terás amado por mais tempo, mais profundamente, porém, na superfície de seus olhos. Ele terá entendido tua alma mais e menos que todos, terá estendido as mãos todas as vezes que necessitares, mas, aí, dormirá a ruína de ambos. Ele será o teu compromisso e tua ausência, teu passado, teu desejo e a falta dele, tua senha, teu amigo, teu amante, teu distante. Ele te dará uma família que não é tua, mas que adotastes, e tudo farás para mantê-la. Todos os momentos em que te sentires perdida, lembrarás de sua firmeza, lamentarás sua fraqueza, lembrarás de seu abraço, lamentarás não tê-lo sempre. Sorrirás, porque sabes que, onde quer que estejas, ele existe, ele foi, ele será. Para sempre.
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Menina na Estrada
O que te faz sorrir sem motivo, menina na estrada? Para onde voa teu pensamento nos momentos de pasmaceira, onde ele pousa, para onde viaja? Como pulas em um pé só, saltitas alegremente, sem dor no coração, como levas tamanha inocência em ti mesma, quando o vento balança teus cabelos na curva da rua, menina na estrada? O que olhas com tanto interesse no chão por aonde vais, o que te chama a atenção? Como imaginas o dia de amanhã, por que paras de repente, por que olhas sobre teu ombro, por que te assustas? E ainda, mesmo assustada, como prossegues em frente, menina na estrada? Como te sentes ao caminhar a rua de terra batida, em direção à loja de doces onde escolhes o brigadeiro macio, o sorves a pequenas mordidas, e deleita-te com o sabor único de primeira vez, menina na estrada? Como chegastes aí? Quantas cordas já pulastes, quantos desvios fizestes? Como consegues olhar pelos vidros da loja e enxergar sol lá fora, após tanta tempestade? O que te faz sorrir sem motivo, menina na estrada?
Fotografia
As paredes nuas traziam promessa não realizada, você não estava lá. Roupas jogadas na cama desfeita indicavam casa vazia há tempos. Deixei-me cair em cima de tudo e lá fiquei com os olhos pregados no teto, pensei em você, virei de lado e atirei longe o que estava embaixo de mim. Ouvi um som de vidro quebrado, levantei a cabeça e avistei a moldura partida do porta-retrato. Peguei-o e, atrás da foto principal, estavam as outras. Suas fotos. Ficaram guardadas somente para mim durante todo esse tempo e nem eu sabia, espalhei-as na cama, olhei seus olhos, seus quadris, sua barriga, seu peito, suas pernas, a boca. Assim permaneci longamente e fiz amor com você como se fosse a primeira vez.
O Sax em Copacabana
Na primeira vez, andava pela rua já deserta àquela hora da noite, apesar de não ser muito tarde, e ouvi o som de um sax, vindo de um dos apartamentos na vizinhança. Olhei para cima, tentando identificar a origem, girei sobre mim mesma, só vi janelas fechadas e luzes apagadas.
Fim de janeiro no Rio, calor forte, o batuque pré-carnaval na praia contrastava com o som de “how deep is the ocean” que eu ouvia, parada na calçada, com os olhos quase fechados. Deixei-me ficar, contrariando o bom senso de estar sozinha na rua com pouca luz, perdi a noção do tempo e quando voltei a mim, já não havia mais sax por perto. Durante dez noites, à mesma hora, retornei ao lugar, encostei em uma grade próxima onde ouvira o som, mas nada. Não havia sax para me encantar.
Fim de fevereiro, chovia, eu andava apressada pela rua, quando ouvi “how long has this been going on?” e paralisei. Olhei ao redor, como da outra vez, janelas, luzes, procurei porteiros atentos, mas, de novo, nada encontrei. A chuva escorreu pelo meu rosto, cheguei mais próxima da grade de um dos prédios, o som se tornou mais distante e retornei para onde tinha estado antes. Fiquei ali mais algum tempo, até que o som subitamente cessou, como da outra vez. Na noite seguinte retornei, e ainda mais duas, mas novamente nada encontrei.
Fim de março, voltava do aniversário de uma amiga, de carro, música ligada, e achei que tinha ouvido um som conhecido. Parei o carro, abri a janela e confirmei. Era o sax de volta. Entoava “do it the hard way”, eu saí do carro e o tranquei, sentei em um caixote de feira que estava na rua e fiquei ouvindo. Dessa vez, não olhei para cima, nem para os lados, não procurei informações, somente deixei a música embalar meus pensamentos. Não voltei na noite seguinte.
Dez dias depois, meados de abril, caminhava triste para casa, chorando, quando ouvi “my heart stood still” e, então, chorei mais ainda. A brisa da noite era fresca, outono no Rio e procurei um lugar para sentar e ouvir. Uma certa hora o som parou por um momento, enxuguei as lágrimas, achei que tinha acabado o concerto por aquela noite, mas logo depois comecei a ouvir “the more I see you”, um arranjo de arrancar a pele, de tirar o fôlego. Fiquei sentada em um canto da grade do edifício, ouvindo, até que parou de vez.
Levantei-me e caminhei para casa, tomei um banho, abri uma garrafa de vinho e busquei em minha gaveta de cds antigos os de Chet Baker, coloquei-os para tocar no cd player e deixei-me ficar ouvindo, alternadamente, o sax e a voz.
Já retornei várias vezes ao local onde ouvia o sax, mas ele nunca mais tocou para mim sob as estrelas. Hoje ouço sua música em minha casa, sem os perigos da noite, sem a emoção de ser ao vivo, de vir de um lugar desconhecido, mas é Chet quem toca e canta.
Um amor descoberto
Então, conto a estória de Elizabeth.
No vigésimo sétimo dia do segundo mês, Liz não apareceu para almoçar e Gerard ficou sozinho na mesa dos dois. Três dias se passaram e ele não tinha notícias, nem sabia como encontrá-la.
No primeiro dia da semana seguinte, mesma hora de sempre, ele chegou ao restaurante e ela já estava lá. Gerard sentou-se e não fez perguntas. Almoçaram um pouco envergonhados, conversaram assuntos variados, falaram de seus autores prediletos. No fim daquele almoço, ele encostou de leve em sua mão e perguntou se eles poderiam trocar e-mail, celulares, para que pudessem se comunicar quando não pudessem almoçar juntos.
Liz aquiesceu e, assim, no terceiro dia do terceiro mês, eles passaram a uma nova fase do relacionamento. A partir daquele dia, todas as manhãs, ao chegar à sua sala, Liz ligava o computador e lá estava uma mensagem de bom dia, já enviada por Gerard. Na hora do almoço, eles se encontravam e riam. Ele a fazia rir muito e muito e muito mesmo. No fim do dia, Liz enviava uma mensagem de boa noite, um até amanhã. As mensagens eram sempre muito espirituosas e ela guardava tudo em uma pasta separada, para reler quando quisesse sorrir.
Ele a fazia sorrir.
Muito tempo após o primeiro almoço em mesas separadas, muitos meses depois da primeira troca de mensagens, após muitos telefonemas para falar de nada, Liz chegou apreensiva ao almoço e sentou-se à mesa onde ele já estava. Era a mesa deles, ninguém mais usava aquela mesa, reservada diariamente para os dois. E contou a ele que a gráfica estava transferindo-a para outro estado, ela viajaria em pouco tempo, os almoços deixariam de existir.
Gerard tentou fazer piada, animá-la, seria uma experiência ótima, uma promoção, ela mesma estava entusiasmada com a ideia do novo desafio, mas alguma coisa se contraía dentro dela e, pouco experiente, não sabia definir o que era.
No quinto dia do décimo sexto mês, Liz partiu rumo ao novo emprego e Gerard voltou a almoçar sozinho. Longe fisicamente um do outro, ainda trocaram mensagens eletrônicas, com um espaçamento cada vez maior entre a notícia de um e a resposta do outro, até que, um dia, cessaram. Perderam de vez o contato. Nunca mais se viram, se falaram, se tocaram, mesmo que sutilmente, nunca mais almoçaram juntos, nunca mais souberam um do outro.
Anos se passaram e, um dia, Liz arrumando arquivos de computador, encontrou sua correspondência trocada. Leu cada uma delas e, à medida que avançava na leitura, dava-se conta do quanto ela havia estado apaixonada, sem saber.
E sorriu.
Não me esqueça
… Não me esqueça. – caminhou em direção à porta e foi embora, como ele poderia esquecê-la? Estava marcada em seu corpo, como uma tatuagem eterna, seu cheiro entranhado em seus cabelos, a memória da pele na comunhão dos corpos, como esquecer as últimas horas, os últimos meses, seus encontros e também os desencontros, acontecimentos inesperados que haviam modificado as circunstâncias, não o sentimento. Vamos fazer uma noite de desejos, você deseja e eu faço acontecer, havia começado como uma brincadeira, um chope inicial, um passeio descompromissado no shopping, a multidão consumista em seu templo de adoração. Na loja de perfumes, escolheram o aroma só deles, quando usado, indicaria a vontade, a disponibilidade, o encontro das almas e consumaria o desejo, vamos jogar boliche, ela venceria fácil o jogo, não porque fosse uma grande jogadora, mas porque ele a deixaria ganhar, somente para ver sua risada, seus gestos de vitória, sua maneira contagiante de viver a vida, existem pessoas que veem a vida, outros encaram a vida, ela vivia a vida, com intensidade, com desejo, com grandeza, cada momento era único, insubstituível. No boliche, ela venceu as seis partidas, compraram presentes, comeram no japa para comemorar, vamos para a sua casa, sussurrava ele ao seu ouvido e ela sacudia a cabeça em negação, não posso, ele insistia, passava os braços ao redor de sua cintura, descia as mãos por suas pernas, ela cedia, ele a beijava sem pudor do sentimento, ela retribuía, foram para um motel, transformaram a noite de desejos em noite consumada, mãos e corpos entrelaçados, exaustos e suados, o cheiro do sexo, cheiro só deles. Amanhecia, ela se levantou, vestiu suas roupas, acariciou seus cabelos, olhou-o demoradamente, chamou-o de meu menino, pegou as chaves do quarto e disse para ele, guarde-as de lembrança desta noite, não me esqueça…