Os Esportes e a Educação

Muito se falou, durante as Olimpíadas de Pequim, do dinheiro gasto com os nossos atletas, de fiascos e amareladas, muito se criticou o desempenho de vários. “Afinal, se não é para chegar em primeiro lugar, por que ir?”

Algumas considerações:

Primeira: Tenho grandes dúvidas de que todo o dinheiro “destinado” às várias modalidades de esportes, realmente chegue ou tenha chegado ao seu destino;

Segunda: Formar uma equipe olímpica implica em investimento sério de longo prazo, em todos os segmentos: encontrar os atletas com potencial olímpico, destinar verbas à sua educação e formação desportiva, formar federações com profissionais competentes – treinador, preparador físico, médico, psicólogo, nutricionista, e toda a equipe de apoio imprescindível a cada modalidade;

Terceira: Para encontrar esses atletas com potencial olímpico é necessário formação de base. E onde é a base? A escola. E onde está a escola no Brasil? No lixo. Em penúltimo lugar das prioridades. Afinal, povo com educação sabe escolher seus representantes, tem menor tolerância à corrupção, e maior nível de exigência na sociedade.

Quarta: Algumas das poucas medalhas conseguidas pelos atletas representantes do Brasil foram conseguidas com esforço próprio, recursos familiares, sem apoio, suporte, investimento de quem deveria ser o maior interessado nesses sucessos: o Estado Brasileiro. Então, chega a hora do pódio, e as lágrimas escorrem, a bandeira hasteada é a brasileira, o hino tocado é o nosso, mas o quanto de nosso realmente existe naquela conquista?

Quinta: Se levamos uma delegação de 277 atletas e só voltamos com 15 medalhas, onde está a falha? Naquele atleta que não teve apoio durantes os últimos quatro, oito anos? No atleta cuja força para vencer, o amor pelo esporte, a falta de alternativas, o fez seguir em vôo solo até as eliminatórias para índices olímpicos? E depois disso tudo, ou da falta de tudo, ainda temos a coragem de escrever, comentar na tv, falar na mesa de bar que fulano/a amarelou? Amarelou como, se ele/ela chegou até ali praticamente sozinho? Quem amarela, há muitos anos, com sua omissão, é o estado Brasileiro.

Fim: Se quisermos fazer melhor em Londres, se quisermos sediar em 2016, o trabalho tem que começar ontem. Mais apoio, melhores condições aos atletas, menos cartolagem, mais educação e seriedade. Infelizmente, não vejo isso em meu país.

Como diz uma professora de minha sobrinha, uma salMa de palmas para a educação no Brasil!

Os Esportes e Eu

Desde as olimpíadas de Montreal, em 1976, eu não acompanhava os jogos com tamanho interesse, independente da performance da delegação brasileira.

Tenho uma cultura de torcedora, não necessariamente de apreciadora de esportes em geral. Quando o time, a cidade, o estado, o país estão representados em algum esporte, para-se para torcer. Bem diferente de apreciar o esporte por sua capacidade de encantamento. Só o tênis escapa. – Apreciadora.

Em 1976, no início da adolescência, acompanhei os jogos olímpicos de forma obsessiva, numa tv ainda em preto e branco, durante minhas férias em Friburgo, muito motivada pelo desempenho dos ginastas, que vinham de recantos escondidos atrás da Cortina de Ferro. – Apreciadora.

Em 1977, assisti ao vivo, levada por meu pai, aos primeiros passos, ou melhor, passes, do vitorioso vôlei brasileiro, no Maracanãzinho, como torcedora de muitas gerações de atletas brasileiros, que venceram todos os campeonatos dos quais participaram. Torcedora e Apreciadora. Até hoje.

A partir de 1980, também como torcedora, influenciada pelo namorado, passei a acompanhar o Circuito da Fórmula 1, que perdeu a graça, para mim, com a morte prematura de Senna em 1994. Só voltei a achar graça este ano, com Felipe Massa em bons desempenhos. – Torcedora.

Com o futebol, tive meus dias de amor e de horror. Mas sempre como torcedora. Hoje em dia, só a Copa do Mundo ainda me motiva a passar noventa ou mais minutos diante da tv. Estádio, nem pensar, já perdi a conta de quantas vezes fui assistir ao Flamengo e à Seleção no Maracanã e não tenho mais disposição de pegar chuva ou sentir calor e ainda ficar na dúvida do lance, quando se vê muito mais confortavelmente e com certeza no replay, em casa, sentada na poltrona preferida. Totalmente Torcedora.

Nos jogos de Pequim, seduzida pela capacidade de superação dos atletas, assisti a várias modalidades do atletismo, acompanhei a natação, as ginásticas, alguns jogos do tênis, os saltos ornamentais, o futebol e o vôlei. Outros não vi, ou porque não conseguia ficar acordada, ou não passava VT nas horas em que eu estava disponível, ou simplesmente não foram transmitidos pelos canais que tenho disponíveis.

Desta vez, em Pequim, lembrei-me da sensação, de trinta e dois anos atrás, de assistir à magia de alguns poucos que, com suas pernas, braços, cabeças, giros, saltos, braçadas, fazem um belo espetáculo e triunfam após esforço e muita abnegação. Apreciadora, com pitadas de Torcedora.

O Sax em Copacabana

Na primeira vez, andava pela rua já deserta àquela hora da noite, apesar de não ser muito tarde, e ouvi o som de um sax, vindo de um dos apartamentos na vizinhança. Olhei para cima, tentando identificar a origem, girei sobre mim mesma, só vi janelas fechadas e luzes apagadas.

Fim de janeiro no Rio, calor forte, o batuque pré-carnaval na praia contrastava com o som de “how deep is the ocean” que eu ouvia, parada na calçada, com os olhos quase fechados. Deixei-me ficar, contrariando o bom senso de estar sozinha na rua com pouca luz, perdi a noção do tempo e quando voltei a mim, já não havia mais sax por perto. Durante dez noites, à mesma hora, retornei ao lugar, encostei em uma grade próxima onde ouvira o som, mas nada. Não havia sax para me encantar.

Fim de fevereiro, chovia, eu andava apressada pela rua, quando ouvi “how long has this been going on?” e paralisei. Olhei ao redor, como da outra vez, janelas, luzes, procurei porteiros atentos, mas, de novo, nada encontrei. A chuva escorreu pelo meu rosto, cheguei mais próxima da grade de um dos prédios, o som se tornou mais distante e retornei para onde tinha estado antes. Fiquei ali mais algum tempo, até que o som subitamente cessou, como da outra vez. Na noite seguinte retornei, e ainda mais duas, mas novamente nada encontrei.

Fim de março, voltava do aniversário de uma amiga, de carro, música ligada, e achei que tinha ouvido um som conhecido. Parei o carro, abri a janela e confirmei. Era o sax de volta. Entoava “do it the hard way”, eu saí do carro e o tranquei, sentei em um caixote de feira que estava na rua e fiquei ouvindo. Dessa vez, não olhei para cima, nem para os lados, não procurei informações, somente deixei a música embalar meus pensamentos. Não voltei na noite seguinte.

Dez dias depois, meados de abril, caminhava triste para casa, chorando, quando ouvi “my heart stood still” e, então, chorei mais ainda. A brisa da noite era fresca, outono no Rio e procurei um lugar para sentar e ouvir. Uma certa hora o som parou por um momento, enxuguei as lágrimas, achei que tinha acabado o concerto por aquela noite, mas logo depois comecei a ouvir “the more I see you”, um arranjo de arrancar a pele, de tirar o fôlego. Fiquei sentada em um canto da grade do edifício, ouvindo, até que parou de vez.

Levantei-me e caminhei para casa, tomei um banho, abri uma garrafa de vinho e busquei em minha gaveta de cds antigos os de Chet Baker, coloquei-os para tocar no cd player e deixei-me ficar ouvindo, alternadamente, o sax e a voz.

Já retornei várias vezes ao local onde ouvia o sax, mas ele nunca mais tocou para mim sob as estrelas. Hoje ouço sua música em minha casa, sem os perigos da noite, sem a emoção de ser ao vivo, de vir de um lugar desconhecido, mas é Chet quem toca e canta.

Que barulho!

Viver na cidade grande dá trabalho. Principalmente para ouvidos acostumados ao canto dos bem-te-vis pela manhã.

O som dos automóveis não para. Nunca. A impressão que tenho é que são os mesmos cinquenta que, durante 24 horas, dão a volta no quarteirão e passam em frente à minha janela. Uns freiam mais fortemente, outros cantam pneu, outros aceleram o motor em ritmo constante e tedioso. Eles também combinam com algumas sirenes: nas horas ímpares, as sirenes de polícia em perseguição acelerada, nas pares as dos bombeiros e ambulâncias. Estão todos aqui, ao redor do meu prédio.

Os ônibus são um capítulo à parte. São quatro pistas, o ponto é do lado direito, mas eles trafegam por todas e quando são chamados, dão uma guinada escandalosa para quase conseguir atropelar a velhinha parada no sinal, esperando atravessar a rua. Um dia conseguirão.

Tenho, igualmente, sons diversos ao longo do dia. Logo cedo, pela manhã, o vizinho liga o CD player em elevado volume para que eu possa participar de sua louvação a Deus. E repete. Três dias na semana é a música “X” em repetição por uma hora; dois dias é a música “Y” por duas horas; dois dias ele viaja. Ufa!

Nos dois dias em que o fiel vizinho viaja, o casal infiel briga. Ele com ela, ela com ele, eles com os filhos e o cachorro late. Como o cachorro late, todos os outros do prédio latem em solidariedade. Inclusive a minha que, nessas horas, não costuma fugir ao chamado.

Em seguida à louvação, começam os baticuns de obra. Nesse edifício as obras não terminam nunca. Marreta, martelo, furadeira, compõem uma verdadeira sinfonia inacabada, temporariamente interrompida às seis da tarde. São os verdadeiros artistas musicais do século XXI.

O lixo (e haja lixo) é recolhido pelo caminhão todas as noites, após as 21 horas. O caminhão fica parado em frente ao meu prédio de cinco a dez minutos (eu disse que era muito lixo) enquanto os garis correm, buscando os sacos, e gritando, uns para os outros, palavras que não consigo ouvir porque a máquina do caminhão faz muito barulho e todos os vizinhos aumentam suas TVs nesse momento. É uma confraternização de TVs em canais diferentes.

As operadoras de TV a cabo, companhias de gás, águas e esgotos têm sempre um buraco para escavar em minha rua. Esses também combinam entre si, mudam o uniforme, abrem o buraco no asfalto, com aquele instrumento gentil, a britadeira, fazem barulho lá dentro por todo o dia, fecham o buraco, mudam o uniforme, trazem novamente a britadeira, usam a régua e abrem outro buraco à 46 centímetros do primeiro, fazem barulho, fecham o buraco, mudam o… e assim permanecem, dia após dia, como uma dízima periódica.

O amolador de facas e o vendedor de vassouras só passam uma vez por mês. Será que estou esquecendo alguém?

Interpretação de Texto, de Vida

Quem, na escola, tirou nota máxima em interpretação de texto? Quem aprendeu a pensar com os professores, descobriu, desde cedo, que existem entrelinhas nos textos da vida?

Quem pode afirmar que o claro é branco, não é bege, ou cinza, ou amarelo? Quem sabe que a luz pode ser sol, lâmpada, vela, descobrimento? Quem percebe que a iluminação não é somente o dia claro, mas também o que nos abre caminhos e nos faz ver o que estava escondido? Estava escondido, ou a nossa percepção era falha?

O quanto é muito? Muito amor, muitas saudades. O que quer dizer isso para você? Muito amor é fazer tudo e até mais por quem se ama? Mesmo em discordância? Mas é que eu amo muito… Então me dou em excesso, mas quanto é excesso? Ou dou menos. Mas quanto é menos? E menos que o quê ou quem?

Muita saudade é pensar três vezes por dia, ou três vezes por ano no objeto da falta? Se penso três vezes por dia é porque me sobra tempo e três vezes por ano porque o tempo é escasso? Mas se penso três vezes por dia um milionésimo de segundo e três vezes por ano passo vinte e quatro horas pensando? Quando é muito e quando é pouco? Quem interpreta de quê forma?

Quantos caminhos diferentes podem derivar de uma única frase? Muitas vezes perguntamos qual era a intenção do autor ao escrever ou dizer aquele texto. Mas já nos perguntamos qual era a intenção do leitor ou ouvinte?

Cada um de nós tem somente uma intenção quando nos comunicamos? Quantas vezes dizemos algo, mas na verdade queremos falar outra coisa? E quantas vezes dizemos aquilo mesmo que queremos, mas chega de forma deturpada ao ouvido do outro? O que é deturpado? É quando eu falo uma coisa e o outro entende errado, ou é quando o outro entende errado o que falo? É quando falo errado e o outro entende de sua maneira? É diferente? É a mesma coisa? O que eu quero dizer?

Qual a intenção no momento da fala e qual a intenção no momento da escuta? Por que tantas vezes temos que explicar o que queríamos dizer? É porque dissemos errado, ou o outro entendeu errado? Para quê e por que tantos ruídos na comunicação?

Por favor, alguém me ajude, Freud, Shakespeare, Nietzsche, McLuhan, Chico!

Meu tio morreu

Meu tio morreu. Viveu à distância de alguns quarteirões, mas estava a quilômetros longe da alma e da bagunça familiar. Meu tio morreu distante. Ao lado de casa, do outro lado da rua, mas longe do conhecimento e do riso em família.

Meu tio morreu e meu pai chora. Chora também minha madrinha. São lágrimas de um tempo distante, em que eram crianças e viviam juntos, na casa de meus avós. São lágrimas do que poderia ter sido se tudo tivesse sido diferente.

Meu tio morreu e não havia brincadeira no Natal, nem presente no aniversário; não havia lembrança do aniversário. Não havia hábito, ou costume. Pouquíssimas vezes o vi. Morreu longe, no bairro ao lado, distante na alma.

Meu tio morreu e só hoje conheci minha prima, nunca a tinha visto, não conhecia seu rosto, nunca tinha ouvido sua voz. Conheci um rosto triste, ouvi a voz de choro, senti a sua dor. Crescemos na mesma parte da cidade, vivemos na mesma época, passamos uma pelas outra sem nos reconhecer.

Meu tio viveu longe e agora morreu. Continuará longe.