O lado negro da força

Lembrei-me de um dia em que perdi a razão, enlouqueci. Reclamei na rua, atropelei um carro abusado no trânsito, mostrei o sinal fechado para o motorista do ônibus, com dedo em riste, arrastei minha cachorrinha por quilômetros de calçadão, caminhei de cara fechada, não dei conversa para quem fazia gracinhas para minha fofa, continuei firme em minha decisão de andar para espantar demônios. Voltamos. Desafiei a Lei e deixei-a solta na areia, sabendo que um banho seria imperativo mais tarde, buscava a repreensão policial, mas ninguém estava à vista. Ai, acho que enlouqueci. Faz tempo.

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12 anos hoje

foto

Eu tive uma filha de quatro patas e pelo avermelhado que estaria fazendo doze anos hoje. Ela conseguiu tirar o melhor de mim em todos os sentidos. Fez-me rir com suas estrepolias e o olhar pidão, esteve presente nos momentos mais difíceis, queria aconchego e proximidade — e teve — e, com a cabeça deitada em minha perna, mostrava que tudo seria resolvido e a dor que eu sentia passaria — fosse o que fosse. Ela me ensinou a enxergar o mundo louco e tresloucado em que vivemos com mais gentileza. Foram muitas as histórias de companheirismo intenso e hoje sinto saudades de seu cheiro, do barulho de seus passinhos, do rebolar, da cara sonsa após travessuras, dos passeios, até mesmo do gelo que me dava quando eu descumpria algum trato ou horário costumeiro. Sinto saudades suas, Sheemarie. Esteja bem, iremos nos reencontrar.

Bola

Sou Flamengo, como meu tio amado. Eu sei que nem todo mundo vai concordar comigo, mas a escolha do time de futebol para o qual vamos torcer não é democrática dentro de uma família. Aqui nos Veiga, só o meu avô era América, mesmo assim, tendencioso para a alegria do filho. A-do-ro uma bola de futebol. Corro atrás dela, dou dribles, rosno para ela e roo mesmo. Talvez, por isso, só ganho bola já furada e as boas ficam, estrategicamente, fora de meu alcance. Mesmo assim, eu apronto as minhas…

Em um Natal, meu primo querido ganhou a bola oficial da Copa na África, linda, linda, brilhante de tão nova. Ah, todo mundo sabe como é Natal né? Aqui, na minha família, é aquela confusão, todo mundo falando ao mesmo tempo, uns chegando, outros saindo e eu não resisti: não tinha ninguém prestando atenção em mim e arranquei uns nacos bem arrancados da bola nova. Quando perceberam foi aquele auê. Meu tio jurou que ia me atirar pela janela (do terceiro andar…), mas a bronca dele passou rápido porque meu avô, maravilhoso como só ele, disse que era Natal, não era para ter briga e era para comprar outra no dia seguinte e trocar a roída pela nova antes que meu primo percebesse.

E assim foi feito, mamy comprou a bola, fez a troca, meu tio levou a roída para o escritório e essa história não estaria sendo contada aqui se meu primo não tivesse visto a roída, algum tempo depois, no escritório do pai. Achou graça, porque ele, além de um primo maravilhoso é um rapaz bacana, daqueles de bom coração (ai, na verdade ele é lindo de morrer).

Quando mamy descobriu que essa bola da foto estava furada, separou para me dar. O problema agora é que, como ela está velha, solta pedacinhos pela sala toda enquanto eu me divirto, jogando o meu futebol sozinha. O chão fica parecendo calçada nevada, tudo muito branquinho, bem bonito, mas a minha avó não fica nada satisfeita com a lambança. Agora esconderam a bola de mim e eu não sei mais o que fazer para gastar a minha dose extra de energia. Mamy prometeu que vai achar a bola, ou arrumar uma outra que não faça tanto estrago na limpeza.

Hoje resolvi contar um pouquinho mais das minhas estripolias porque a tia Veroniki, amiga de mamy, falou que adora ler o meu diário. Eu sei que ela torce para outro time, mas acho que ela vai gostar mesmo sabendo que eu sou Mengão.

Deu a louca no paraíso

 Já não entendo mais nada. Vivi anos maravilhosos na serra e de lá para cá, como diz o meu médico, mamy me tirou do paraíso e me trouxe para o inferno da cidade grande. Passei a usar coleira, a sair nos horários das gentes e fiquei proibida de fazer um monte de coisas. Como demonstração de minha revolta, passei a despedaçar as camas horríveis que me dão.

Mesmo assim, continuou a ser um paraíso, perto de tanto cãozinho e gatinho abandonado à própria sorte. Minha família humana me acha meio voluntariosa, mas me adora. Meu tio me faz os melhores carinhos, minha avó me cobre e passeia comigo, meu avô é que desapareceu de repente. Acho que ele está na cozinha quando sinto o cheiro de seu perfume, mas quando chego lá, não é ninguém. E adoro minha dona, estou sempre por perto, quando ela está ao alcance de meu potente faro.

Mas agora, que começou o inverno rigoroso no Rio, quando os cariocas tiram todos os casacos do armário e tremem aos 16º, minha dona resolveu me vestir com isso aí da foto. Foi um escândalo! Na rua, eu não quis falar com nenhum dos meus amigos, morta de vergonha que eu estava. Marvin passou do outro lado da calçada e me viu, mas eu olhei para o lado. Tudo o que queria era voltar correndo para casa. Ou tirar a fantasia. Arrastei minha barriga no chão, me esparramei, fingindo ser um sapo, mas não houve forma de impedí-la de me levar à rua vestida desse jeito. Ela jurou que não coloca mais, foi só hoje, nunca mais tem que ser nunca mais!

Nem nos tempos realmente frios da serra eu usava roupa! Agora mamy cismou que só porque eu estou mais velha, sinto mais frio e tenho que me vestir. E onde fica minha dignidade de cachorrinha levada e autônoma? Não… nunca mais! Por favor, ajudem, peçam à minha dona para não mais me vestir com roupa nenhuma, porque gosto mesmo é do meu pelo ao vento! Depois me enrosco no cobertor, mas fantasiada, na rua, nunca mais!

Chororô

 Pois é… Sou uma senhora de 9 anos e ganhei cama nova, com uma estampa que minha master chamou de horrorosa, mas eu não sei bem o que quer dizer essa palavra, não consta do meu vocabulário canino. Estou bem satisfeita com a novidade, pois além de inteira (eu mastiguei muito a minha cama velha), essa é bem mais fofa. O resultado é que ando bem aconchegada nesse tempo que os cariocas humanos chamam de inverno glacial. Para quem morou na Serra, como eu, nem faz cócegas. É claro que eu tenho meus cobertores de furinhos, por onde enxergo o mundo ao meu redor quando estou enrolada, mas roupa, nem pensar. Primeiro, porque sou uma cadelinha (apesar de meu tio me chamar de outros nomes esquisitos que fazem mamy se zangar), segundo porque cresci no campo, correndo atrás de gatos e sapos e roendo pinhas, não tenho paciência para essas frescurinhas de madame. E por último por escassez, só tenho duas roupas: uma da seleção do Brasil, um ataque ufanista de minha dona na última copa (como se eu ligasse para isso) e uma estampada que me limita os movimentos. Gosto mesmo é de andar mostrando o meu pelo, que já foi lindo antes de começar a ficar grisalho.

Tenho amigos na vizinhança, como já contei: Thor (que não tenho visto), Nick, Mingau e Apolo. Eu faço uma certa festa quando os encontro, mas me canso logo. Aí tenho que ficar esperando master bater papo com os outros humanos e faço logo aquela cara de enfado, acho que faço até aquele ar   b l a s é   que uma amiga de mamy falou que detesta em gente. Isso é porque poucos sabem fazê-lo bem como eu.

Quando minha dona tem tempo, passeamos pelo lado de lá, eu sentindo o sol no pelo, cheirando a maresia, andando em marcha forte e dormindo um soninho muito bom após tanta andança. No entanto, quando mamy fica dodói, como neste último finde, também fico como e com ela. Fico encolhidinha ao seu lado, minha cabeça em sua mão estendida, não faço barulho para não perturbar. Também não gosto quando ela chora, acho estranho e não sei bem o que fazer porque não entendo seus motivos. Não faço nada, mas não saio do seu lado, fico só olhando até que ela para e volta a respirar normalmente. Aí coloco minha cabeça na sua perna, mas às vezes isso só piora, porque ela volta a chorar novamente. É estranho, porque funga muito e eu acabo molhada e não gosto de chuva. E lágrima humana é como se fosse pingo de chuva em cima de mim, tão baixinha.

Bom, nesses tempos de chororô eu tento ser uma boa cachorrinha e sou como uma sombra para minha dona: aonde ela vai, eu vou atrás. Tento não perdê-la de vista para que ela saiba que estou sempre por perto. Como o meu colo é pequenininho, fico pronta para colocar minha cabeça em sua mão. E muitas vezes nós duas acabamos adormecendo juntas, ela com a mão em mim, eu com o aconchego de sua mão.

Minha História

Sou taurina, como minha dona, nasci no dia 18 de maio de 2002, na Ilha do Governador. Com quase dois meses, a sobrinha mais velha de mamy me pegou, subi a serra e fui morar com ela em Friburgo, ou seja, sou praticamente uma friburguense. Minha primeira infância passei em um edifício no centro da cidade, onde fui educada, alimentada e onde aprendi a me cobrir sozinha com os cobertores termocel — aqueles com furinhos, que minha dona compra diretamente na fábrica, no tamanho infantil — e onde me ensinaram a melhor brincadeira da vida: correr atrás de garrafas pet e mastigá-las fazendo muito barulho. Quando ela fura, mamy joga fora imediatamente, com medo que eu engula um pedaço de plástico que poderia ferir meu estômago. Eu não entendo muito porque ela tira de mim a garrafa rasgada, mas acato.

Em meados de 2003, eu tinha quase um ano e meio, quando mamy assistiu pela décima vez aquele filme que ela adora “Melhor impossível”, com Jack Nickolson, e resolveu que queria um cãozinho como o Verdel. Antes de começar a procurar um cãozinho para adotar – minha dona é super a favor da adoção de animais – ficou decidido que eu seria doada para ela. Os motivos exatos não consegui compreender, mas o fato de sair de um apartamento para morar em uma casa com um quintal enorme e horários livres para sair — a porta ficava sempre aberta por minha causa — passear no quintal, brincar com os outros cães, roer as pinhas caídas no terreno e latir no portão — um dos meus passatempos preferidos — foi como chegar no paraíso. Com tantas corridas pelo terreno, desenvolvi uma musculatura forte e mamy falava que eu parecia uma halterofilista. Eu fui operada bem cedo para não procriar — meus meio-irmãos eram machos — e fiquei mais cheinha, mas plena de músculos. Se alguém quisesse irritar minha dona, era só falar: “Como ela é gorda, né?” Ela só faltava xingar a mãe do ofensor. Meus anos de Friburgo foram maravilhosos e eu vinha ao Rio com alguma frequência. Meu primeiro Natal como uma legítima Veiga foi no Rio, onde a foto acima foi tirada. Eu era bem novinha, meu pelo bem avermelhado e tinha muito fôlego. Adorava passear na Lagoa e sentir aqueles cheiros diferentes dos da serra. Uma vez fiquei muito tempo olhando para uma garça, sem coragem de me aproximar. Eu pareço valente e lato muito forte, mas sou a desconfiança em forma de cão. Eu já tinha quase cinco anos quando vim morar no Rio. O paraíso ficou para trás e como diz meu médico, mamy took me from heaven and brought me to hell. Não gosto dele, mas minha dona diz que ele é o máximo. Por causa dele — ou da cidade grande — passei a tomar mais vacinas que na serra e detesto quando ele vem com aquelas agulhas enormes. Tudo bem que ele passa gelo logo em seguida, para eu não ficar dolorida, nem inchada, mas nem assim me convence. Mamy me obrigar a ir lá, não posso fazer nada, mas na única vez em que ele esteve aqui em casa, quando o vi entrando, fiz um escândalo tão grande que o bairro inteiro ouviu. Muita cara de pau dele vir me cutucar em casa!

Daqui a pouco menos de três semanas farei nove anos e já sou uma senhora de meia idade. Ando mais voluntariosa e não tenho mais a paciência de antes com filhotes. Tem um na minha rua que minha dona adora e ele fica pulando na minha frente, se exibindo com sua agilidade de machinho, mas eu olho para o lado e finjo que não é comigo. Não adianta mamy me chamar para a brincadeira, que não vou, empaco no lugar e ainda a faço passar vergonha. Quando quero muito uma coisa, faço essa cara aí ao lado, abro meus olhinhos e corto o coração de quem resolve me negar o pedido. Uma coisa que minha dona acha muita graça é quando ela deita e estica o braço, eu vou lá, deito ao lado e fico passando minha cabeça na mão dela para ganhar carinho. E se ela finge que tá dormindo, eu fico resmungando até ela acarinhar meu pelo. Simples assim. Quando meu tio chega — o irmão de minha dona, que diz que não é tio de cachorro, haha, nem tô aí — faço uma festa louca, lato de alegria e dou pulinhos até ganhar um carinho. Os sobrinhos de minha dona são legais, mas eu tenho um pouco de ciúmes deles com meu tio. Não gosto de ficar sozinha em casa e sempre arrumo uma coisa para demonstrar meu descontentamento: mexo no lixo, faço xixi no jornal, puxo as cobertas de alguma cama ou roo a minha própria. Eu tive uma cama que roí tanto e minha dona foi costurando, até que não sobrou espaço para eu deitar e ela foi dada. E quando eles voltam desses passeios que sou excluída, tô sempre mancando de uma pata. No início, eles ainda caíam na minha chantagem, mas acho que agora já perceberam que é golpe, porque riem e apontam e eu volto a caminhar normalmente. Assim que foi lançado, mamy leu o livro do marley e disse que eu parecia com ele, em forma e força dminuídas, afinal ele era um labrador e eu sou uma dachshund. Bom, um pedaço resumido da minha história está aí e agora vou fazer a cara com queles olhos pidões e resmungar um pouco ao lado de mamy para passearmos antes da chuva. Até breve.

As andanças de Shee

Shee anda exausta dos últimos dois meses. Como todos nós, ainda espera a chegada de quem não chega, a volta de quem chamava ela carinhosamente de Porcaria. Mas era Porcaria em um tom tão afetuoso que ela atendia cheia de graça. O som do elevador a deixa alerta, mas a porta não se abre com ele.

Na casa nova que já é velha conhecida de minha flor, frequentada desde a mais tenra idade, onde ela passou seu primeiro Natal no Rio, em 2003 – tinha um ano e meio e pelo completamente avermelhado, nada desses pelos brancos que se espalham por seu corpinho – pois bem, nessa casa que agora é também seu lar, ela não para quieta. Vai de um lado a outro, seguindo rastros, checando quem chega e quem sai, franzindo o focinho ao menor sinal de invasão, é um cão de guarda! Tanto caminha, tanto anda, tanto presta atenção que perdeu duzentos gramas em sessenta dias e quando chega a noite fica assim, como na foto: derrubada. Ela que vira – sempre! – o focinho quando me aproximo para tirar foto, nem se mexe. Está exausta, louca por um escurinho do cinema e o aconchego de um de nós.

Shee arrumou amigos na vizinhança: Thor, Nick e outros dois que ainda não sei o nome. Eles fazem a maior festa quando a encontram e ela bem gosta do assédio, apesar de fazer cara de paisagem. Quando saímos e não encontramos ninguém, ela fica como numa partida entre Nadal e Federer, olhando de um lado a outro, sem confessar para quem torce. Mas não sei o que lhe deu, que resolveu latir ferozmente para labradores. Quanto maior, mais alto o latido. Temos que mudar de calçada ou encurtar o passeio. Não fazia isso antigamente, é briga nova. Enfim, minha flor já dorme e ronca, daqui a pouco levantará a cabeça para saber se continuo batucando teclas na madrugada.