O lado negro da força

Lembrei-me de um dia em que perdi a razão, enlouqueci. Reclamei na rua, atropelei um carro abusado no trânsito, mostrei o sinal fechado para o motorista do ônibus, com dedo em riste, arrastei minha cachorrinha por quilômetros de calçadão, caminhei de cara fechada, não dei conversa para quem fazia gracinhas para minha fofa, continuei firme em minha decisão de andar para espantar demônios. Voltamos. Desafiei a Lei e deixei-a solta na areia, sabendo que um banho seria imperativo mais tarde, buscava a repreensão policial, mas ninguém estava à vista. Ai, acho que enlouqueci. Faz tempo.

12 anos hoje

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Eu tive uma filha de quatro patas e pelo avermelhado que estaria fazendo doze anos hoje. Ela conseguiu tirar o melhor de mim em todos os sentidos. Fez-me rir com suas estrepolias e o olhar pidão, esteve presente nos momentos mais difíceis, queria aconchego e proximidade — e teve — e, com a cabeça deitada em minha perna, mostrava que tudo seria resolvido e a dor que eu sentia passaria — fosse o que fosse. Ela me ensinou a enxergar o mundo louco e tresloucado em que vivemos com mais gentileza. Foram muitas as histórias de companheirismo intenso e hoje sinto saudades de seu cheiro, do barulho de seus passinhos, do rebolar, da cara sonsa após travessuras, dos passeios, até mesmo do gelo que me dava quando eu descumpria algum trato ou horário costumeiro. Sinto saudades suas, Sheemarie. Esteja bem, iremos nos reencontrar.

Minha História

Sou taurina, como minha dona, nasci no dia 18 de maio de 2002, na Ilha do Governador. Com quase dois meses, a sobrinha mais velha de mamy me pegou, subi a serra e fui morar com ela em Friburgo, ou seja, sou praticamente uma friburguense. Minha primeira infância passei em um edifício no centro da cidade, onde fui educada, alimentada e onde aprendi a me cobrir sozinha com os cobertores termocel — aqueles com furinhos, que minha dona compra diretamente na fábrica, no tamanho infantil — e onde me ensinaram a melhor brincadeira da vida: correr atrás de garrafas pet e mastigá-las fazendo muito barulho. Quando ela fura, mamy joga fora imediatamente, com medo que eu engula um pedaço de plástico que poderia ferir meu estômago. Eu não entendo muito porque ela tira de mim a garrafa rasgada, mas acato.

Em meados de 2003, eu tinha quase um ano e meio, quando mamy assistiu pela décima vez aquele filme que ela adora “Melhor impossível”, com Jack Nickolson, e resolveu que queria um cãozinho como o Verdel. Antes de começar a procurar um cãozinho para adotar – minha dona é super a favor da adoção de animais – ficou decidido que eu seria doada para ela. Os motivos exatos não consegui compreender, mas o fato de sair de um apartamento para morar em uma casa com um quintal enorme e horários livres para sair — a porta ficava sempre aberta por minha causa — passear no quintal, brincar com os outros cães, roer as pinhas caídas no terreno e latir no portão — um dos meus passatempos preferidos — foi como chegar no paraíso. Com tantas corridas pelo terreno, desenvolvi uma musculatura forte e mamy falava que eu parecia uma halterofilista. Eu fui operada bem cedo para não procriar — meus meio-irmãos eram machos — e fiquei mais cheinha, mas plena de músculos. Se alguém quisesse irritar minha dona, era só falar: “Como ela é gorda, né?” Ela só faltava xingar a mãe do ofensor. Meus anos de Friburgo foram maravilhosos e eu vinha ao Rio com alguma frequência. Meu primeiro Natal como uma legítima Veiga foi no Rio, onde a foto acima foi tirada. Eu era bem novinha, meu pelo bem avermelhado e tinha muito fôlego. Adorava passear na Lagoa e sentir aqueles cheiros diferentes dos da serra. Uma vez fiquei muito tempo olhando para uma garça, sem coragem de me aproximar. Eu pareço valente e lato muito forte, mas sou a desconfiança em forma de cão. Eu já tinha quase cinco anos quando vim morar no Rio. O paraíso ficou para trás e como diz meu médico, mamy took me from heaven and brought me to hell. Não gosto dele, mas minha dona diz que ele é o máximo. Por causa dele — ou da cidade grande — passei a tomar mais vacinas que na serra e detesto quando ele vem com aquelas agulhas enormes. Tudo bem que ele passa gelo logo em seguida, para eu não ficar dolorida, nem inchada, mas nem assim me convence. Mamy me obrigar a ir lá, não posso fazer nada, mas na única vez em que ele esteve aqui em casa, quando o vi entrando, fiz um escândalo tão grande que o bairro inteiro ouviu. Muita cara de pau dele vir me cutucar em casa!

Daqui a pouco menos de três semanas farei nove anos e já sou uma senhora de meia idade. Ando mais voluntariosa e não tenho mais a paciência de antes com filhotes. Tem um na minha rua que minha dona adora e ele fica pulando na minha frente, se exibindo com sua agilidade de machinho, mas eu olho para o lado e finjo que não é comigo. Não adianta mamy me chamar para a brincadeira, que não vou, empaco no lugar e ainda a faço passar vergonha. Quando quero muito uma coisa, faço essa cara aí ao lado, abro meus olhinhos e corto o coração de quem resolve me negar o pedido. Uma coisa que minha dona acha muita graça é quando ela deita e estica o braço, eu vou lá, deito ao lado e fico passando minha cabeça na mão dela para ganhar carinho. E se ela finge que tá dormindo, eu fico resmungando até ela acarinhar meu pelo. Simples assim. Quando meu tio chega — o irmão de minha dona, que diz que não é tio de cachorro, haha, nem tô aí — faço uma festa louca, lato de alegria e dou pulinhos até ganhar um carinho. Os sobrinhos de minha dona são legais, mas eu tenho um pouco de ciúmes deles com meu tio. Não gosto de ficar sozinha em casa e sempre arrumo uma coisa para demonstrar meu descontentamento: mexo no lixo, faço xixi no jornal, puxo as cobertas de alguma cama ou roo a minha própria. Eu tive uma cama que roí tanto e minha dona foi costurando, até que não sobrou espaço para eu deitar e ela foi dada. E quando eles voltam desses passeios que sou excluída, tô sempre mancando de uma pata. No início, eles ainda caíam na minha chantagem, mas acho que agora já perceberam que é golpe, porque riem e apontam e eu volto a caminhar normalmente. Assim que foi lançado, mamy leu o livro do marley e disse que eu parecia com ele, em forma e força dminuídas, afinal ele era um labrador e eu sou uma dachshund. Bom, um pedaço resumido da minha história está aí e agora vou fazer a cara com queles olhos pidões e resmungar um pouco ao lado de mamy para passearmos antes da chuva. Até breve.

As andanças de Shee

Shee anda exausta dos últimos dois meses. Como todos nós, ainda espera a chegada de quem não chega, a volta de quem chamava ela carinhosamente de Porcaria. Mas era Porcaria em um tom tão afetuoso que ela atendia cheia de graça. O som do elevador a deixa alerta, mas a porta não se abre com ele.

Na casa nova que já é velha conhecida de minha flor, frequentada desde a mais tenra idade, onde ela passou seu primeiro Natal no Rio, em 2003 – tinha um ano e meio e pelo completamente avermelhado, nada desses pelos brancos que se espalham por seu corpinho – pois bem, nessa casa que agora é também seu lar, ela não para quieta. Vai de um lado a outro, seguindo rastros, checando quem chega e quem sai, franzindo o focinho ao menor sinal de invasão, é um cão de guarda! Tanto caminha, tanto anda, tanto presta atenção que perdeu duzentos gramas em sessenta dias e quando chega a noite fica assim, como na foto: derrubada. Ela que vira – sempre! – o focinho quando me aproximo para tirar foto, nem se mexe. Está exausta, louca por um escurinho do cinema e o aconchego de um de nós.

Shee arrumou amigos na vizinhança: Thor, Nick e outros dois que ainda não sei o nome. Eles fazem a maior festa quando a encontram e ela bem gosta do assédio, apesar de fazer cara de paisagem. Quando saímos e não encontramos ninguém, ela fica como numa partida entre Nadal e Federer, olhando de um lado a outro, sem confessar para quem torce. Mas não sei o que lhe deu, que resolveu latir ferozmente para labradores. Quanto maior, mais alto o latido. Temos que mudar de calçada ou encurtar o passeio. Não fazia isso antigamente, é briga nova. Enfim, minha flor já dorme e ronca, daqui a pouco levantará a cabeça para saber se continuo batucando teclas na madrugada.

Cães e gatos

Sofia é a gatinha dos meus vizinhos. Fujona, a-do-ra tirar uma pestana na minha janela, no calor do quase sol.

Eu já estava para tirar essa foto há tempos, mas nunca era rápida o suficiente, ou estava escuro demais, ou eu estava na correria diária, dava tchau e ia embora.

Hoje consegui. Não posso dizer que ela foi das mais amorosas. Quando me aproximei de seu refúgio para tentar fazer uma foto mais de perto ela abriu a boca cheia de dentinhos afiados e fez como a mulher gato no filme do Batman. Bati a foto e em retirada rapidamente.

Quando cheguei em casa, Shee estava a minha espera e eu trazia um ossinho de presente para ela, que se comportou como uma cachorrinha educada em minha ausência.

Foi a deixa para ela começar a andar pela casa a procura de um lugar para enterrar ou esconder seu precioso tesouro. Gemeu, resmungou, só faltou reclamar do assoalho de madeira. Cadê a terra? Até que resolveu subir na poltrona do escritório e começou a cavá-la. Isso mesmo, cavou a poltrona do escritório sem muita convicção e lá esperou, parada, osso na boca, devia estar pensando o que fazer. Não resisti: saquei a foto ao lado – princesa osso na boca, poltrona azul real, livros ao fundo a espera da sabedoria canina…

Outono no Rio

Eu e Shee vagamos por um mundo em tons de cinza, bruma e cheiro de grama orvalhada, caminhamos pela estrada reta, não enxergamos seu fim, continuamos passo a passo, firmes em nosso propósito de não pararmos. Ela vai com o focinho parecendo um limpa trilhos de trem, cheirando tudo, mas firme em frente. Subimos e descemos pequenas elevações, e continuamos fortes em frente. Não tem fim essa estrada, o sol já esteve atrás de nós, já esteve por cima de nós, agora começa a baixar lá na frente, em breve virá o lusco-fusco, em seguida a escuridão, a estrada em que andamos não tem iluminação, talvez não tenha luz e continuamos em frente. É outono no Rio e eu acordo empapada em suor de tanto andar.