Mulher

Ela abriu os olhos e ainda não amanhecera. Levantou da cama na penumbra, acendeu a lâmpada pendurada pelo fio, entrou no banheiro descascado e sem enfeites, tomou uma ducha cantarolando. Depois se vestiu, prendeu o cabelo num arrumado coque e passou batom antes de sair. O morro estava mais agitado naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo dormente.

Abriu a porta, deu oi pra vizinha, conversaram sobre o churrasco de aniversário no domingo. Combinaram o que levariam e trocaram ideias sobre as roupas que usariam. Começou a descer a rua, que estava mais movimentada naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo cansado.

Caminhando em seu ritmo, repassou mentalmente o que a esperava no laboratório em que trabalhava. No dia anterior, uma cliente mal-humorada tinha escrito uma reclamação sobre uma das atendentes e ela, como supervisora, teria que resolver o problema com muito jeito. Enquanto caminhava, pensando na resposta, percebeu um número maior de policiais nas vielas que estavam mais cheias naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo incômodo.

Apressou o passo, pois queria falar com a amiga na padaria antes de seguir para o trabalho. O sapato novo, parte do uniforme do laboratório, apertava seu pé e ela pensou que, no fim do dia, teria uma bolha para cuidar. Ouviu o barulho que vinha do alto do morro, que estava mais violento naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo desagradável.

Enquanto andava, sentiu um beliscão nas costas, ao mesmo tempo em que caiu no chão. Fechou os olhos, o sangue escorreu pela calçada que estava mais apinhada naqueles dias, mas ela já se acostumara com o medo da vida.

 

A boa-fé

A boa-fé cansa. A boa-fé causa problemas. De boa-fé assinei um contrato em que se tudo desse errado para eles, eu pagaria; se tudo desse errado para mim, voltaríamos para o zero. Com boa-fé Marluce fez amizade eterna com Cacilda, louca de pedra, e eu disse: “ela é louca”. Alguns anos depois, a louca virou pedra e Marluce saiu correndo. De boa-fé Ariadne trouxe remédios que não precisam de receita no exterior, e prolongam a vida sofrida de Emília, que tem uma doença incurável, e foi presa pela PF por contrabando de substância proibida pela Anvisa. A boa-fé causa prejuízos emocionais. A boa-fé constrange. Com boa-fé Sofia viajou com uma infecção no pé e medicada. Perdeu parte da viagem, poderia ter perdido o pé ou a vida. A boa-fé provoca medo. A boa-fé faz com que eu acorde acreditando que o dia seguirá seu fluxo honesto, contanto que eu me aliene das notícias dos jornais. A obrigatoriedade faz com que eu vote, porque aí não mais existe boa-fé. A necessidade faz com que eu gaste horas ao telefone com funcionários maltreinados de empresas de serviços, porque aí nunca houve boa-fé. A boa-fé dá trabalho. No entanto, a boa-fé nasceu comigo, cresceu em mim enquanto eu emprestava as bonecas, brincava com as amigas e trabalhava em equipe. A boa-fé fez de mim uma pessoa apatetadamente crente de que o bem prevalecerá. A boa-fé cansa.

Bala perdida

O impacto me jogou no chão, barriga para baixo, pernas em desalinho, vestido levantado, rosto arranhado no asfalto quente, tal como o líquido que escorria pelas minhas costas, mãos e pernas paralisadas pelo medo, olhos fechados pela dor. Passos apressados ao meu redor, berros de gente desconhecida que empurrava o meu grito mudo de volta para a garganta. O tiro não tinha endereço certo, fora disparado para o primeiro alvo que cruzasse a sua trajetória e meus pulmões estavam em seu caminho. Senti um gosto de sangue em minha boca e louca vontade de tossir, impossível em minha imobilidade de terror. O socorro demoraria a chegar e eu seria mais uma estatística. Não haveria tempo de falar o que adiei, de ouvir o que deixei para depois, de olhar o céu estrelado da infância ou ver um arco-íris após a chuva. Consegui abrir um olho e enxerguei um sapato vermelho ao lado de meu corpo. Não era Dorothy.

Marialva

Marialva gostava de flores do campo, Osório lhe entregava tulipas de plástico. Ela preferia viajar de carro, com rumo mas sem roteiro, ele planejava os minutos das férias. Marialva era cheia de energia e queria o sexo sem hora marcada. O metódico Osório só permitia o prazer agendado. Marialva se sentia prisinoneira das datas obrigatórias que Osório lembrava com presentes comprados pelo preço. Marialva queria sair com as amigas, falar bobagens do dia, mas Osório não dava folga, não ia nem ao futebol com os amigos. A vida dos dois era simbiótica por imposição do tempo e das vontades do marido. Na última quinta-feira, ele se depediu da mulher com o mesmo beijo na testa e a promessa do chameguinho obrigatório à noite. Marialva não hesitou: colocou as roupas na mala, documentos na bolsa, escreveu um bilhete simples e saiu pela porta para abrir a vida.

Osório

Osório chorou: “não sei em que errei”. Jogou-se em cima da mesa do bar e continuou a chorar, todos olhando assustados aquele homem grande se esvaindo em lágrimas. Ele era um perfeito marido, há vinte anos não olhava para o lado, só enxergava Marialva, que agora arrumara as malas e saíra de casa, não queria nem conversa. Osório, inconsolável, desfiava o novelo de seu amor que o impedia de entender como a mulher o abandonara, ele-o-marido-perfeito.

O homem contava que, em vinte anos, nunca esquecera nenhuma data: a do primeiro beijo, a de quando começaram a namorar, a de quando marcaram a data do casamento, e a da cerimônia. Para cada data, um presente especial, uma lembrança, um agrado. Além das datas, Osório fazia questão de demonstrar o seu amor com bilhetinhos escondidos pela casa, levava flores, Marialva era a sua deusa a quem ele fazia tudo para agradar. Ela era a sua alma gêmea, a tampa, a metade, todos os lugares-comuns dos ditos populares.

Os amigos o chamavam para um futebol, para assistir ao jogo no bar, para comemorações e ele sempre respondia que sem a mulher não tinha graça. E não ia. Chegava em casa cedo, via a novela com Marialva, ajudava a lavar a louça do jantar, fazia chamegos na mulher sempre aos sábados, às segundas e quintas. Comparecia com alegria e com prazer. Para Osório, a vida era perfeita.

Na última quinta-feira, entrou em casa animado, carregando um ramo de tulipas para a mulher. Encontrou a casa vazia, os armários vazios, a vida vazia. Marialva partira. Um bilhete em cima do banco dizia: “cansei”.

Era uma vez

Era uma vez a bruxa má que vivia no reino de Soberbian, bem perto do reino de Unquinhoinca. A bruxa má tirava o sossego dos aldeões por meio de suas mandingas xexelentas e maldades sem graça. Os aldeões de Soberbian não sabiam como se comportar perto da bruxa má porque ela, além de ser má porque gostava de ser má, não costumava agir da mesma maneira para duas situações semelhantes. Era como se a bruxa má vivesse em constante TPM, apesar de ser homem.

A bruxa má ganhava a vida entregando as maçãs envenenadas que vendia para aspirantes de bruxas e bruxas velhas. Ela mesma era uma bruxa velha musculosa, mas gostava de dizer que era fraquinha, fraquinha, para enganar os bobos do reino. A bruxa má gostava de deixar sua vassoura atravessada no caminho só para atrapalhar e atrasar a vida dos aldeões. O que a bruxa má não sabia é que os aldeões já não ligavam para os seus desvarios e riam pelas suas costas, ao apontar suas bruzundangas.

A bruxa má saltava de suas vassouras possantes com suas perninhas pequeninas, meio tortas e cabeludas, estufava o peito de forma presunçosa e, crente que era o ser mais lindo, inteligente e culto da terra, redigia textos para os habitantes de Soberbian repletos de havias sem agá e supérfluos começados por cê cedilha.

A bruxa má mantinha mulher e filha em cativeiro, mas não sabia que todos sabiam que elas fugiam quando ela levantava voo para entregar suas maçãs podres. Entretanto, a maçã não cai muito longe da árvore, a filha já tinha se tornada aprendiz de bruxa má enquanto a mulher tentava equilibrar o relacionamento da casa da bruxa com os habitantes de Soberbian, que acreditavam com convicção que ela apanhava de seu marido, a bruxa má. No entanto, nada podiam fazer.

A bruxa má era uma piada sem graça.